a a d o r m e c e r
é raro, muito raro, falarmos de algo mais do que de nós próprios. podemos fugir, escondermo-nos atrás de uma cortina com um cheiro intenso a naftalina, ou então, atrás de uma árvore qualquer, depois de acenarmos para uma parede repleta de mensagens politizadas. eu não voto, sim?
às vezes caminhamos sem perceber para onde vamos e porque vamos. e mais: não são raras as vezes em que não caminhamos e ficamos tão perto de nada. há quem prefira refugiar-se na sombra de desenhos animados dos finais dos anos setenta e haja quem cante ao desafio desafinando aqui e ali.
sim, penso que não sabes ... olha para ali ::: vês? ::: um pássaro voa sobre nós, mesmo que um baixo estridente esteja a estragar uma canção e tu não esboces um sorriso desde que desistimos de acenar aos pobres de espírito que não te querem bem.
rabisco-te (ao adormecer).
a a c o r d a r
é com as últimas palavras do dia que normalmente sonhamos. há quem tropece no ridículo ou quem se embriague no ocaso da consciência. coisa pouca e opaca, pois os pequenos delírios não são mais do que contos de fada tocados em flauta transversal decorada a rebuçados de vários sabores. reparo na ainda leve (e desfocada) presença da manhã, enquanto permaneces acordada. não consegues adormecer, mas precisas, não precisas? não sabes que desenhas a cinzento os sons que deambulam pelo teu quarto? a febre evapora-se entre o chá de limão com açúcar amarelo e as torradas amanteigadas da avó. o queijo cheira mal. está estragado. não lhe toques. há ruídos abstractos no último andar e um gato ciumento persegue o lento nascer do dia. as sirenes brindam a mancha de café na toalha de seda. há quem ainda sussurre as últimas palavras do dia, ao mesmo tempo que existe quem murmure um ensonado e apagado "bom dia".
no nosso quarto ::: rabisco-te (ao acordar).
dois
nem me acredito que estás a dormir no quarto ao lado. as viagens podiam ser bem mais simples. deprimem-me facilmente, com a paciência a esgotar-se na banalidade das conversas dos outros, nos odores e sabores dispersos e nos percursos suspensos por narizes empinados. tenho medo do artificial, da síntese, das nuvens negras que insistem em aparecer sem serem chamadas. há também o sol e as mulheres-a-dias - que não sabemos a que horas chegam - mais a sede de nos embriagarmos juntos no quarto. os discos continuam apressados, enquanto dormes. nenhum olhar é como o teu. e eu, entre chuva e cigarros não acabados, estranho o estares a dormir no meu quarto. no nosso quarto. "you are so beautiful" num inverno em agosto.
três
o autocarro partiu e eu aqui, a atravessar a estrada confuso, ao senti-lo arrancar nas minhas costas. restam os vestígios das horas anteriores: os lençóis brancos que nos aconchegaram, a almofada sobre a qual as nossas cabeças repousaram, a toalha em que te embrulhaste e o meu corpo arranhado pelo qual viajaste. regresso aos discos maquilhados e às memórias incendiadas de palácios sinuosos no nosso íntimo infinito. já não me lembro das palavras nem do sol. abraço a tua esplendorosa plasticidade, na certeza que tu respiras e transpiras arte. porque tu és arte.
quatro
um adeus sem despedidas. um frágil e inseguro momento mascarado de sentimento musculado. o explodir das tuas dúvidas enquanto a gata mia a profunda saudade dos olhares que não voltarão a tocar-se, dos silêncios que não voltarão a cruzar-se. não a vi. não podia. tu levaste o sol e tenho medo deste escuro.
seis
o desejo de partir desvanece-se em sorrisos e abraços de veludo. o tempo parece voar no regresso ao local de uma panóplia de crimes perfeitos. basta um sinal, o ranger inquieto da madeira e divaga-se sobre o sexo dos crustáceos. há carinho nos olhares, cumplicidade nos sorrisos, um cais de beatas e de copos vazios que reacendem a chama desta viagem deambulante entre polaroids revisitadas e sombras de passos sobre pontes a estalar. há quem prefira regalar-se com a paisagem, enquanto rendo-me ao incandescente brilho da lua assassina. sim, porque eu vejo a mesma lua que tu vês flutuando indeciso pelos retalhos dos quadros por nós desenhados e inocentemente esquecidos na água e no sal gelado das precárias memórias de calor.
sete
ouço ruídos esquisitos e observo vizinhos a movimentarem-se entre a varanda e a cozinha, enquanto acendo e apago um frágil cigarro esquecido no meio da bagagem eternamente por desfazer. hoje tive sonhos alucinados e, aparentemente, ninguém deu por isso.
oito
é entre a grafonola e o vinil que cedo à flamejante chama do sono, o mesmo que serve de pretensa muralha ao desejo cruzando-se com o limiar da consciência do periquito ensandecido. tenho as memórias crispadas entre o freio no comboio que não me viu partir e a viagem sobre o rio que te viu nascer e crescer. os passos nocturnos fugidios nos pequenos sinais de combustão urbana, até à própria, em forma de festa e romaria. as pipocas multicolores, o algodão rosa mais do que doce, cerveja, cerveja, cerveja a rodos e o inefável cachorro português à brasileira. pessoas, pessoas e mais pessoas vigiam-nos os movimentos com sons perplexos e rostos carregados de felicidade até ao acordar. eu prefiro dançar sozinho.
até já.
nove
não há marcas. apenas vestígios. de canções que serão mas que já podiam ter sido. o veludo permanece inabalável no voo do pássaro aflito em trapézio vertiginoso sobre poemas e frutos. corre pelas veias o calor de outras planícies e as saudades de planar no quarto ao lado. a dor é passageira. a melancolia subsiste ao jogo de futebol que não vejo ao contrário do que pensas. não sei o que pretendes saber. duvido que consigas dizer, a partir de hoje, as mesmas palavras doces. duvido que consigas repetir, a partir de hoje, os mesmos gestos subtis. duvido que, a partir de hoje, adormeças tão leve, segura e confortável como nos outros dias. há algo que te falta, como se fosse arrancada uma pétala de uma flor incandescente, enquanto o sol entra pelo quarto às três da tarde murmurando: "hora de acordar".
dez
saudades dos (teus) dois sinais e de acordar ao ver-te chegar com o teu sorriso solto e belo. as imagens do dia em que te vi adormecer permanecem vivas na memória e respiro cada segundo que me inspiras. desenho-te na janela empoeirada do comboio que me traz de volta ao lar. viajo ao ritmo dos sons que me dissolvem na paz dos teus braços. os restantes passageiros tornam-se irrelevantes, assim como descobrir a porta de saída. prefiro viajar sozinho a pensar em ti e nos teus dois sinais. (e em ver-te adormecer depois de fazermos amor).
onze
passos cortados, cabelos ao vento e o incenso golpeado de céu em imagens descritas por palavras monocórdicas. deito-me sobre a erva seca, sem luz, iluminado por fogueiras imaginárias e pelo teu saboroso sossego - o que te despe na monotonia dos dias pálidos e de tertúlias silenciosas interrompidas pelo som das cigarras. é quando sentes a água correr que os sentidos adormecem nas palavras que vão saindo menos fluentes até se apagarem no sol de lado nenhum. tu em roupa interior e eu vestido. despido para te agarrar e mostrar que não basta sentir para dizer ou ser. longas e tresloucadas as curvas até chegarmos a(d)onde nunca conseguiremos chegar: ao sumo dos nossos corações.
doze
tudo parece irrelevante ao conhecer-te. os meus fantasmas foram devorados pela sublime magia das tuas meias multicolores. o tempo corre sorrateiro... voa.. e não damos por isso. aguardo um grito de pedra ou um jardim letal em lusco-fusco. o que nos resta são pedaços de relva fofa e humedecida que pisamos de encontro às situações vulgares ou inesperadas como se abríssemos a janela da nossa alma e ouvíssemos pássaros mudos. sozinhos no meio de tanta gente entre uvas passas, chupa-chupas de morango e todo um resto de singulares cumplicidades.
catorze
as janelas fecharam-se no singular. por uma escada descem dois indivíduos mascarados numa estranha e desconcertante fuga. a tempestade deslocou-se lenta e as marcas de bâton no cinzeiro denunciam a escassez de palavras monossilábicas e os desejos feridos nos lençóis breves e frígidos. é nas fotografias em que adormeces e onde há vestígios doces dos teus cabelos, do nosso suor trópico e de sonhos permanentes com sabor a morango. descansamos juntos enquanto a neblina abraça a manhã num sinal claro de que o verão se vai apagando pelo menos até amanhã.
quinze
vestígios indeléveis de saturação na trepidante rota alcoólica em que os guardanapos de papel sobrevoam os olhares enxaguados de lágrimas de cordel esfaqueadas pela sagacidade obscura de um petit-boy que se faz acompanhar por uma putéfialoiraoxigenada. os miúdos prosseguem em agonia no quarto escuro do vizinho, no requinte inconstante de uma sobremesa semi-fria acompanhadas por sombras de reféns a despirem-se em diferentes partições dos seus recantos. ninguém os ouve. ninguém nos sente. nem as sombras dos reféns, nem os ouvidos dos infelizes. fazer bolinhas de sabão é o pouco que nos resta. e se depois?
dezasseis
queria recordar do que me esqueci. sei que regressei do ponto de embarque e não te encontrei. vislumbrei pessoas diferentes, revisitei histórias antigas e recentes. sempre os mesmos passos titubeantes acompanhados por aquela navalha pontiaguda a ferir-te o corpo. a mesa de café órfã de boas notícias e o açúcar não deitado no café mais as imperiais de rajada e os cigarros em catadupa. lembro-me de ti em cada trago. por cada passa. enquanto falamos de tudo e do nada.
dezassete
já não tinha memórias recentes destas viagens delicadamente deliciosas em autocarros cheios. as tergiversações e flutuações permanentes a cada travagem ou curva intermitente. os vestígios de areia e de sol a mais nas pessoas. as conversas inconsequentes e o odor excessivo a suor a viciar o ambiente fechado, carregado nos olhares mesquinhos, nos risos afogados e na insensível claustrofobia até à ansiada paragem final. até ao nosso regresso, camaradas.
dezoito
as esperas excessivas roem-me os sentidos. há sempre um cigarro na algibeira e um café escondido para o drible angustiado sobre a verdade indesmentível e assustadora: eles são maus e andam por aí, por todos os sítios à solta e são mais do que as mães. são a imagem fiel do espelho rachado por inseguranças múltiplas que conduzem ao medo excessivo e à intermitência titubeante. espera corrosiva. esferas viciadas na demora estéril. será difícil não acordar constipado amanhã.
dezanove
não consigo dormir. a insónia devora-me há dias consecutivos. não tenho sono, nem nome. só vontade de sonhar contigo ou ver-te dormir iluminada por uma lua de morangos incandescentes. as dúvidas permanecem sossegadas no mesmo canto das palavras vagarosas. há silêncios que nos afogam numa inconstância trémula como se víssemos o nosso mundo dissolver-se como cera na madeira que pisamos no nosso poiso. os pássaros também parecem indecisos com o avançar da madrugada, no quase manhã à qual chegamos quase sempre atrasados. os sorrisos pouco valem, ao invés do grito mórbido que engole os fantasmas que dançam a morte, enquanto um casal bebe sossegado o primeiro café do dia. é muito difícil aguentar tantas horas sem dormir, sem ter medo de abraçar uma nova alvorada, entre pequenos barulhos de talheres enferrujados e banhos de naftalina certos de que é perigoso escrever canções sobre edifícios a arder, mesmo que o pai natal apareça daqui a três meses pela chaminé. os sentidos ingénuos absorvem os beijos em cereja e os nossos segredos congelados dissolvem-se nas natas e no leite condensado, até serem engolidas pelas labaredas das nossas vidas espremidas por uma agulha demoníaca. não tenhas medo. absorve os segundos no som de uma flauta transversal, não esquecendo as pequenas grandes inseguranças presas ao som do kazoo para perceber que o tempo ainda não passou apesar de mergulhares na solidão de quem há muito não escorrega em algodão doce. o sono quase não te deixa abrir os olhos, enquanto os meus permanecem arregalados - mesmo que sublinhados pelo negro das olheiras - assim como os dedos subtis que percorrem-te o corpo coberto por um lençol cor de rosa seda. mesmo que o sol não permaneça à tua espera, deixa os pensamentos escorregarem pelo baloiço dos nossos sentimentos e abre as janelas de panos húmidos e esclarecidos que te fazem transcender até ao cume da montanha de frutos que desenhamos com pincéis ensanguentados. as contradições não são a cura para a ressaca dos corações agnósticos. não tenhas duvidas em relação ao teu papel. enlaça os raios comprimidos desdobrando-os em canções desafinadas por palavras sinistras e rostos de madeira enrugada. a solução é a fuga descontrolada pelos areais, ou então, só mais uma canção sem refrão se o sono continuar a teimar em não chegar.
vinte
nada nem ninguém nos pode salvar. nem o coração, nem a voz da razão. deixem acender as luzes do palácio de césar e logo veremos. acordas sonolenta? ainda não adormeci. há velhos no jardim iludidos por pedaços açucarados de sol envergonhado. há quem prefira legumes salteados ou t-shirts abstractas. o pior é o rancor nos rostos impenetráveis de antepassados guerreiros que não são sendo. acende a luz. acena-nos num canto engaiolado cobrindo-nos de gelo antibiótico. assim é mais fácil perceber que não estás só enquanto o cão late as saudades do seu mais reluzente amor. espera-nos, finalmente, a tamanha passagem da noite para o dia e a tosse ébria dos dias de chuva sufocados pelo vento, pelas nuvens e pela angústia de ratos engripados. os sonhos esvaecem-se a bordo de um navio de dúvidas e incertezas. o artista é assassinado pelas sílabas tónicas que rompem virgens segundos em quartos incendiados de mal estar por mesquinhos insectos venenosos, perigosos assassinos em série. éramos todos tão inocentes por culpa das nossas queridas avós feridas pelas bolhas de ar e pelos erros de cálculo.
vinte e um
as toupeiras agigantam-se na seda pura das artérias solares desventradas pela sede de verdade na certeza transparente de que estamos todos doentes e a febre demoníaca impede-nos de avançar sem cuidado e persegue-nos em cada beco sem saída da urbe gritando inconstante ao sabor delicado de um piano depressivo e dos comprimidos adocicados que nos fazem dançar sobre as lágrimas de veludo. são púrpura os sinais que nos suspendem a infância em pequenas gotas musicais saídas das pálpebras carregadas de um violino célere. amanhã, depois do sono, será outra a canção aos olhos lentos e cinzentos da razão.
vinte e dois
vou a todos os lugares onde os teus olhos foram e sei que as estrelas também choram de saudade hipnotizadas pelos sons cálidos da noite sobre o nosso miradouro.
vinte e três
súbitas doenças surgem de forma simpática e permitem-nos fugir do inconveniente. é tempo de repensar e de descansar em movimento perpétuo desenhando a resenha de dias de capa e espada que se desvendam num ápice imperceptível de luz rasgada sobre a manhã que conquistamos bravamente de mãos dadas. saudades tuas, meu amor, em dia de sol pintado de negro. a dor de cabeça esvaída no sorriso branco de uma criança.
vinte e quatro
as papoilas incendeiam as veias trópicas de céu na busca incerta e impiedosa da alegria trôpega alérgica a sonhos azul-bebé e a permutas de cigarros enrolados pelo vento sonolento que arrebata a alma e os sentidos despertos das flores chorosas. o sentido não está onde é esperado. está sempre do outro lado, ou então, esconde-se dentro da sombra das pessoas mais bonitas, as que trepam escadas partidas pela virtude morena de trapézios almofadados. estamos todos presos às saudades dos gestos dos outros e aos beijos de quem nos faz suar. a sonhar. sonhar. sonhar. sonhar.
vinte e cinco
as manhãs estão cada vez mais parecidas com arcas frigoríficas. densamente frias. espíritos carregados alerta. aventuras congeladas por danças de ventre confusas. as manhãs parecem passadas dentro de frigoríficos estragados. a luta inconstante. o caos a bater à porta. o brilho nos olhos da velha que faz croché à janela. os seios cheios de nada da vizinha do terceiro andar que passeia nua pelo quarto. há quem viva num enorme caixote de papelão esquecido no lixo coberto por pinhas que são o semáforo intermitente das minhas vontades feridas e esquecidas. sinto-me inerte e antipático aos olhos de quem não me conhece. o tempo escasseia ao contrário da vontade de te voltar a ver. (e de sonharmos juntos no meu quarto)
vinte e seis
já não fumo os cigarros até ao fim assustado pelo fluxo de carros que deambulam em contramão. onde estás tu? provavelmente a pisar a areia dourada da praia amena dos teus olhos castanhos. aguardo pacientemente os sinais de fumo para o retorno breve aos desenhos animados e às canções esquecidas da adolescência embriagada.
vinte e sete
ouvir-te pode ser o estímulo perfeito para antecipar o regresso. as saudades acumulam-se por cada palavra que escorrega, pelo desejo de nos voltarmos a cruzar entre braços de veludo. cais em mim. desvaneço-me em ti. acendo mais um cigarro enquanto te espero.
vinte e oito
nuvens de fogo em pedaços de chuva desintegrada. o regresso entediante aos papeis trocados, camuflados de nevoeiro nos becos diurnos assolados pelos gatos solteiros que soltam as asas à luz apagada que se desvenda em lençóis lunares, subterfúgio vil do acaso omnipresente em cada canção. acendem-se cigarros nos candeeiros e absorvem-se manchas de luz em zig-zag constante, solitárias no reflexo das lâminas vãs que irrompem velhas fábricas abandonadas. há quem já não sinta as costas e as perca ao som de vendavais ardentes e aguçados na busca solitária das rosas nunca antes inaladas em versões virgens de sonhos com dedos cortados na acrobacia final dos queixos levianos que suspendem fantasias empoeiradas nos lenços perversos da insónia matreira dominada por marinheiros com saias rasgadas pela madrugada aflita. seremos sempre mais do que qualquer coisa até que deslizemos sobre as maçãs dos outros e naveguemos na incerteza vertiginosa dos néons feridos por animais ensandecidos. o trânsito há de parar e aí caminharemos sobre um rio de água límpida e terna só poluído pelo peso das guitarras desencontradas. não tenhas medo de sorrir. não tenhas medo de fugir. não tenhas medo de me matar.
vinte e nove
quantos dias faltam para dizeres o que não sentes? quantas palavras murmurarás em silêncio até sorrires e dizeres-me ao ouvido "foge daqui"? as luzes da cozinha estão inutilmente acesas iluminando as louças, de várias refeições, por lavar e a roupa de sei lá quantos dias permanece no estendal. esquece os receios, amplia as dúvidas e acende-te no desejo que cobre as estrelas que ainda correm na nossa direcção. não fiques parada. sente. mergulha. afoga-me em pó de talco. as palavras episódicas revelam-nos à lareira os erros insensíveis. o pai natal esqueceu-se do saco das prendas e deixou os miúdos a chorar. e tu? de que choram os teus olhos? porque sangra o teu coração? os mortos vivos escondem-se por debaixo da cama de segredos fugidios. não deixes o café arrefecer. amanhece comigo.
trinta
a música dos teus olhos revela-se espaçosamente triste na estrada inacabada que une os nossos corpos que não são mais do que planetas inacabados. não adianta a síntese, o afogar dos pensamentos ou diluir comprimidos em vinho cicatrizado pela melancolia de uma melodia esquecida num sótão de sensações murmuradas. há sinais de solidão nos copos vazios, nos cinzeiros repletos de beatas, na voz rouca do inquilino, nos passos descompassados e na clandestinidade dos silêncios obscuros aos quais nos rendemos pela falta de sol, de sal e de som. vazio. não gastes mais palavras em vão. não aceites mais canções. não atendas mais o telefone. limita-te a respirar e a ceder perante olhares incompreendidos sobre qualquer silhueta que se renda ao pecado original de pressentir vozes espaciais no adormecer inquieto dos cisnes brancos cobertos pela luz alva dos sentimentos vazios e semi-frios.
trinta e um
acelera o movimento descontinuo dos nossos corações sobre os passos de dança flamejantes e o sono das palavras que nunca escreveste. o muro permanece inquieto na solidão agonizante da multidão desconexa e errante. o corpo febril acaricia o abandono da verdade inesperada que solta o desencanto da traição no copo de vinho francês que entornas em pecado sobre o nosso passado. a dor não passa com beijos salgados e bâton nubloso que identifica a ânsia e o desejo do arremesso frio sobre a tua pele à espera de resposta. parece já não haver saída, nem chegada ao porto algemado que clama a ausência de rostos de um amanhã que permanece distante. o fruto proibido nem sempre é o mais apetecido.
trinta e dois
há vestígios de candeeiros partidos e de manchas de café sobre a roupa tingida de rosa. os camponeses dançam com o vento e abraçam a agonia vespertina com um açucarado sorriso com sabor a baunilha. a chuva cai nas janelas do apartamento vazio e arrebata a saudade das viagens de barco sem sentido e sem rumo. a simplicidade precoce, a fuga distante, o caos e a poluição percorrem a palma das nossas mão feridas e impedem-nos de voar pelo caminho mais bonito, não deixando libertar as marés e os marinheiros saudosos, perdidos entre nuvens de fumo e balões de whisky salgado. o cansaço aborda-te sorrateiro e clama o regresso suave à casa repleta de pedaços de nós e à nossa história escrita num comboio solitário por onde vagueávamos sem bilhete, sem bagagem e sem destino.
trinta e três
um artesão que desvenda o seu trabalho vagaroso. o jogo de ténis no último ponto decisivo. a irrelevante história de uma dona de casa que se diz injustiçada. o artista pouco ou nada artista e as palmas pagas descompassadas. a série horrivelmente dobrada. as declarações polémicas e mal dispostas de um presidente ensonado. a enésima repetição do programa sobre a vida da vizinha. a bondosa e fashionable apresentadora que não reparou que já ultrapassou o prazo de validade. a radicalidade ensaboada e trôpega no cenário habitual. as conversas de café sobre absolutamente nada. o filme de foda do nonagésimo nono escalão e um idiota a fazer zapping cada vez mais entediado em frente à teelvisão.
trinta e quatro
a falta de luz não me deixa nervoso. encaro-a com a mesma naturalidade com que ouço vozes de lado nenhum a murmurarem "boa noite". é pesado o véu que se solta sobre sombras escuras que invadem os nossos corações dilacerados pela lua assassina controversa no seu flash incendiário e transgressor. o sofá queimado pela ponta agreste de um cigarro há muitos dias fumado e esmagado pelos dedos amarelos de fumo. não sabemos por onde caminhamos nem onde encontramos os feixes de luz que irradiam o amor e os seus demónios. a tosse convulsa serve-nos de alerta para as gotas de suor que escorregam pelo corpo e mancham a camisa desbotada adormecendo a sensibilidade de metal no rosnar inquieto e malicioso dos cães com sede assassina que nos perseguem em cada esquina procurando o imenso nada que nos preenche ao ser tão pouco relevante. os pensamentos dispersos rodopiam exaustos e absorvem a vertigem barulhenta que nos faz perder o controle até cambalearmos e cairmos sobre uma imensa mancha de sangue condensado. aí é que nos apercebemos que é impossível resistir e voltar atrás. tarde demais.
trinta e cinco
a sopa está fria em cima de uma mesa de madeira enrugada. as pálpebras sangram a tua ausência certa que emudece os sonhos escritos nos cadernos perdidos em redundâncias inertes despedaçadas em fraldas molhadas. o violino enternece-te o olhar preso à flauta marginal que absorve as minas ácidas que revelam a ambivalência muda dos sentidos crispados no fumo. o segurança espreita enquanto alguém pede um cigarro não fumado até ao fim e discute-se o plástico chamuscado e o regresso ao pântano das ausências. as cores dispersam-se pela floresta de sons e de riscos esquecidos, perdidos na sua essência omnipresente. adormecemos sobre as calçadas sem nome onde se diluem os sentimentos e espreitam as interrogações devoradas pelo absurdo nítido dos sentidos secos e dos sorrisos amarelecidos.
trinta e seis
é impossível dizer-te adeus. é tão difícil murmurar um tímido "'té já" incendiado pela tua beleza subtil e simplicidade cadente nos teus gestos tímidos. refugio-me nas palavras que te queria ter dito ontem, hoje e só poderei dizer-te amanhã. se o conseguir, pois mil demónios querem-me fechar num quarto para de lá nunca mais sair.
trinta e nove
acentua-se a agonia ao sentir que o controle da situação esfuma-se entre os meus dedos. apetece-me fazer as malas e regressar a casa. desfazer a cama, o quarto, as palavras, as dúvidas, os medos, o ecrã de televisão, as fitas, os discos, o candeeiro, as lâmpadas, o telefone que não toca, as incertezas, as dores de cabeça, os gestos, as roupas, as músicas, os livros, o nada, as linhas, o ventre, as madrugadas, o sono, o amor, o sexo, o mundo. vou partir e deixar apenas uma nuvem negra de interrogações em forma de flores e pequenas manchas de sangue num fado chuvoso.
quarenta
o regresso a casa dentro de cinco minutos. a bagagem carregada de incertezas e de sonhos por desvendar. os teus olhos que, na incerteza, fazem-me sonhar e desenhar no vidro molhado do autocarro outras palavras acabadas em -ar.