de todos os contos
por nós transformados
em lágrimas tristes
sobra um silêncio
sussurado
no brilho derramado
em escuridão
todos partem
em impulsos irritados
com os olhos costurados
pelas amarras
do objecto
da nossa afeição
todos partem
menos eu
e o estrondear
do teu brado dorido
em mofino fado.
dissipo-me. possa eu ouvir-te e dissipar-me à flor da terra, comigo. talvez se construam caminhos que não se pisem nunca. mas faz-se eterna a hora de hoje. e a medir-me, insensível, acho a fragilidade. erro a poça. perene, nos meus sapatos-para-a-chuva, durante o verão. faz-se flor a mão que deixei cair. uma a uma. são vagas as pétalas. as palavras que se afloram na garganta. e morrem dentro da boca. dissipo-me. possa eu ouvir-te gritar. ecoar. límpido e imenso: a voz. nisto se igualam as mãos: a voz. só nisto teimo em forçar a memória. uma a uma: na voz dissipam-se as mãos.
[margarida]
eu não oiço. não ouve ninguém o que eu oiço. eu não oiço. o meu quarto, o meu corpo. não ouve ninguém que cai pó das paredes. há fendas onde as mãos adivinham a calosidade do cimento, como escoriações. há pó em cima da pele. pó em cima dos desenhos. como os primeiros traços do mundo, aqueles que fora das margens desenharam um quadrado e, ao lado, um olho. aquele a que chamaram ”Cão”. e esse olho era da cor do pó. esse foi o primeiro olho que existiu. os primeiros traços do mundo no pó do meu corpo. eu não oiço. mas o pó também mora nos dedos, que se levam à boca, e essa foi a primeira boca que existiu. é aqui que mora todo o pó do mundo. eu não oiço. não houve ninguém que ouvisse. ama-me agora se queres ver. tu não me ves. eu não oiço.
[margarida]
como um alfinete que se confunde com o chão. lembras-te? de noite há montras luminosas e luzes na chuva e passos que escorregam. cá dentro há mãos que não encontram nada nos bolsos. quase mãos, quase mangas. confundo-me. um dia agrafei o polegar. quase que não me lembrava. posso tactear o polegar com os dedos que me restam. mas se eu me esquecer - e tu não o vires - não existe o meu polegar. não foram ainda inventados os agrafos. se eu não me lembrar. nenhum grito infantil instaurou nenhuma vírgula. ninguém veio a correr. eu não chorei. não te podes lembrar. uma vez deram-me beijinhos na nuca enquanto tocava o sangue de uma ferida. duas mãos, firmes, seguravam-me os ombros enquanto ardia o algodão na carne. penso que pontapeio alfinetes sem dar conta. ando descalça pelas várias divisões. ignoro a formalidade das salas de estar quando estou. encaracolo os dedos dos pés enquanto me esqueço de estar. escondo um pé no outro. desequilibro-me e caio. como um alfinete, confundo-me com o chão. piso-me. mas se eu não me esquecer - e tu não o vires - ninguém deixará de pisar. nenhum grito me denunciará. não podes ver. se chorar e me esquecer, não chorei. tu não me vês.
[margarida]
dissipo. possa eu ouvir-te dissipar-me. à flor da terra. comigo. talvez se construam caminhos que não se pisem nunca. insensível. fez-se eterna a hora de hoje. mas a medir acho a fragilidade. erro a poça. perene, nos meus sapatos-para-a-chuva. fez-se flor a mão que deixei cair. uma a uma. são vagas as pétalas. as palavras que se afloram na garganta. e morrem dentro da boca. comigo. dissipo-me. possa eu ouvir-te gritar. escoar. límpido e imenso. a voz. nisto se igualam as mãos: a voz. só nisto teimo em forçar a memória. uma a uma. dissipam-se, as mãos.
[margarida]
tenho a certeza. esperar o carrocel parar. o mundo está parado. esperar para entrar. e girar com ele. e o mundo. fechar os olhos e mentir que é uma grande tolice isto. e calar-me. só rodar. pensar circularmente em ti, à noite, na cama. amanhecer às voltas, com o mundo todo voltando também. descobrir que dói muito amar-me a mim mesma. esquecer o peso da cabeça e falar sozinha. em espirais e apitos. rodar-me em mim. às vezes tenho a nítida sensação que as mãos escravizão. os círculos também. como chegar, por mais frio que esteja o vento, a um lugar de partida. sempre. sem dar mais um único passo. como uma coisa óbvia. girando. tenho a certeza. rodar com ele. esperar para entrar. andar às voltas. ser preferivel ser louco. respirar.
[margarida]
Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído precorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.
manuel antónio pina
chamo-me margarida e explicaram-me, quando era pequena, que foi o meu irmão que escolheu o meu nome. nesta altura do ano cai-me, sempre, a pele da ponta dos dedos das mãos. chove, muitas vezes, na rua. não tenho tempo, mas principalmente habilidade, para guarda-chuvas. entro no meu dia-a-dia com a pele dos dedos enrugada de limpar a chuva da cara. gosto de andar na rua a olhar para os meus pés. estudar o balanço. pousar-me no equilíbrio de um passo. arriscar o salto nas poças. fechar as mãos dentro dos punhos da camisa. guardar o polegar dentro da mão. guardar as pontas do cabelo nas voltas do cachecol. limpar, com as mãos, a chuva da cara. cantarolar baixinho e ouvir o eco nos corredores, elevadores, casas-de-banho. sorrio no sucumbir do som. às vezes as árvores são obstáculos, como as portas e as paragens de autocarro. às vezes as nuvens fazem sombras enormes no chão. e depois vem a noite. eu escrevo tolices porque penso tolices. mudo por vezes de tolice num instante, e as pessoas ficam tão confusas quanto eu.
[margarida]
É verdade que o meu prazer reside no teu voar. assim como no florir de um pirilampo. amando. e eu levanto o nariz em direcção à folha na árvore. fecho os olhos e equilibro, assim, a lágima.
[margarida]
aos seis anos pintei o meu primeiro azulejo. lembro-me das mãos douradas da minha mãe a coser, com cuidado, a bonequinha de carvão, como ela me explicava. entrava um sol, pela sala de aula, amarelo torrado. a minha mãe deu-me uma esponja laranja carcomida e esticou-me o desenho de um pássaro que eu fizera dias antes. comecei a picotar em torno do desenho. com a língua presa entre os lábios, calculava meticulosamente cada furinho. olhava distraída para a minha mãe, que preparava os quadradinhos brancos empoeirados sobre uma mesa, e o sol tornava-a dourada. lembro-me de a olhar dourada, com o cabelo preso, distraidamente, com dois ganchos grandes. lembro-me da sua bata comprida na qual eu enrolava dois dedos, tímida, enquanto andava ao seu lado pela escola. todos os dias, a caminho da cantina, havia uma colega ou outra que nos interrompiam o silêncio do caminho ritual. paravam a conversar e eu, envergonhada, ia enrolando-me na sua bata, prendendo os cabelos nos botões das suas saias. todos os dias, ao passar as portas altíssimas verdes da cantina, a senhora cozinheira saía por entre nuvens de sopas e vegetais salteados e vinha cumprimentar a minha mãe e perguntar pela "menina-pisca". era uma senhora muito redondinha, cabo-verdiana, que dava muitos abraços à minha mãe e falava alto e ria muito e fazia-me rir. depois voltava para as tempestades tropicais do arroz. quando acabei de picotar o desenho a minha mãe ajeitou-o sobre um dos quadradinhos empoeirados. passou-me a bonequinha de carvão para as mãos e, com a mão sobre a minha, batemos levemente com a bonequinha de carvão sobre os buraquinhos. o carvão ia manchando os buraquinhos, os meus dedos, pequeninos, o meu nariz, demasiado perto do desenho. os meus olhos sempre com demasiada atenção. tirámos as duas o papel sujo de cima do azulejo e o desenho lá estava, perfeito, em pequenos pontinhos pretos sobre um quadrado empoeirado branco. lembro-me de sorrir e olhar a minha mãe, enquanto eu, discretamente, limpava os dedos, negros, à barriga da minha blusa. a minha mãe contornou-me, entretanto, com frascos altos de água colorida, com pincéis de madeira compridos. lembro-me do dourado da sala e do seu sorriso, pequeno, quando, insegura, lhe disse que se calhar já ficava bonito só assim. sorriu, dourada, e saiu da sala. tive, então, de pintar. sempre tive medo partir ou estragar coisas e em pequena tinha mais. escorria, muito lentamente, o pincel no gargalo do frasco, no medo de entornar tudo para cima do meu pássaro por pintar, para cima da minha blusa suja de carvão, para cima da sala dourada onde a minha mãe ensinava, para cima do próprio sol. pintei o pássaro de azul céu, o bico e o olho de preto e pintei, no fim, pequenas folhinhas verdes nos quatro cantinhos do meu quadrado empoeirado. fiquei quieta à espera da minha mãe. achava que se mexesse uma perna a mesa ia temer e um frasco colorido ia cair no chão e partir-se e espalhar laranja ou vermelho ou verde e toda a gente ia reparar. ela demorava sempre. mas quando veio não trazia a bata e já não era dourada a sala. eram horas de ir para casa, explicou-me. o meu pedacinho de azulejo pintado ficara na sala, de onde a minha mãe o iria levar para um forno especial, para a tinta secar e nunca mais sair. saíamos da escola juntas todos os dias e ao passar o portão verde, de correntes a arrastar no chão, tornávamo-nos diferentes. dois dias mais tarde a minha mãe trouxe-me o meu azulejo. também ele ficou diferente. a mistura aguada da tinta azul estava estragada, disse-me ela. então, além de ter ficado cinzento clarinho, quebrou, também, a tinta, dando a impressão de volume e espaços entre a penugem do meu grande "pássaro-pisco". ficou diferente, a minha mãe escreveu o meu primeiro nome na parte de trás, e secretamente eu sei que ficou mais bonito assim, com penas de verdade, com a cor que ele escolheu para si. secretamente eu sei que foi ele que não quis caber num pedacinho branco empoeirado, nem na minha blusa, nem no bolso grande da bata da minha mãe, mas numa sala onde me lembro do sol entrar dourado.
[margarida]
acordo, muitas vezes, a meio da noite. o teu cabelo é a extensão de um lugar onde dormem os meus sonhos. lembro-me dos teus lábios a dormir. o seu calmo movimento. como se dançassem. tocam-se e afastam-se. quase quietos. como se respirassem os meus sonhos. beijam-se. como se (-me) beijassem o olhar... ar... acordo, muitas vezes, a meio da noite.
[margarida]
este natal vou oferecer-te uma laranja. há na laranja uma perfeição quase inatingível. a sua cor é quente, contrastando com o frio do inverno. do ponto de vista da estética, a laranja tem a forma mais perfeita das formas, a esférica. uma laranja cabe numa mão que a pode envolver, sendo desse modo, de agradável tacto. já vem embrulhada de uma forma natural e bela. pode desembrulhar-se facilmente usando as mãos e os dedos e as unhas. ao descascar há um odor fresco que rodeia quem perto se encontra. quando descascada, pode-se facilmente abrir ao meio e está dividida em gomos que cabem, perfeitos, na boca, um a um. é riquíssima em vitamina c, de que tanto se precisa, sobretudo, no inverno. pode semear-se os pequenos caroços, que encontramos nos gomos. a laranja é uma belíssima prenda. este natal, quero dar-te a minha laranja. percorrer gomos, contigo. desembrulharmos a nossa laranja. todos os natais.
[margarida]
os nossos pés tocam-se, despidos, por baixo do cobertor. vejo-te fechar os olhos. a tua respiração sobre a minha. e eu vejo-te ir. vejo-te dormir. paro de respirar para não te acordar. passamos a tarde inteira de um domingo deitados. e os nossos pés tocam-se, despidos, por baixo do cobertor. posso ficar aqui a noite inteira? posso passar aqui a noite?
[margarida]
acordei a meio da noite com a tua camisa azul enrolada nas mãos. o calor que se desprendia dela e a humidade pegajosa das minhas pálpebras, das têmporas,... da almofada. cheguei as mãos e a camisa mais a mim e fiquei quieta. imóvel. quis ser parte. só isso. como a cama, onde assenta, lento, o coração. como o candeeiro desligado. como o escuro silêncio onde fica suspensa a minha respiração na tua voz, que segundo a segundo tento ouvir. choro baixinho atenta. segundo a segundo, o silêncio. e nas mãos, enrolada essa minha verdade de que só sei amar contigo.
[margarida]
cortei-me num bocadinho de papel. olhei pela janela e vi letras desenhadas nas estrelas desfocadas. então cortei-me. não doeu. mas depois vi o sangue. depois vi o sangue pintar o papel. quis fazer um avião de papel para fugir para aí. para ti. liguei o dedo com um trapo e sentei-me no sofá pequenino. pousei o avião em cima da perna. estou à espera do vento. para chegar aí. a ti.
[margarida]
chove muito. e os dedos não podem seguir todas as gotas pela janela. pelos rostos. pelas manhãs. pelos kilómetros demorados. e depois virá depois do sorriso. teu. e depois, virá depois de de te fazer uma flor de papel. e escrever que
e depois, a lágrima. minha. previsível. chove. choro.
[margarida]
agora, fizeste-me lembrar de mim. sorriste-me e eu lembrei-me que o sonho pode rebolar de encontro à tua chuteira e tu podes sempre marcar golo na primeira nuvem que passa. eu sorrio-te, grande, da área. e lembrar-me de mim, em quatro linhas, é pensar-te a dormir pela relva junto à nossa janela e saber que pelos teus cabelos, enquanto o sonho rebola pelas escadas, estão os meus.
eu sei que tu sabes chutar a bola com força.
[margarida]
eu vou estar sempre aqui, nada vai mudar.
sinto-te arder no meu fundo..
eu vou estar sempre aqui, nada vai mudar.
sinto-te entrar no meu mundo, fundo...
nós tocamos em alguma coisa, nós seguimos por alguns sentidos.
se nos podem ver, não nos podem tocar!
meu desejo
é morrer na paz do teu beijo!
ornatos violeta
não fui um grande admirador de ornatos violeta, exceptuando o fabuloso "tempo de nascer", música que fazia parte da excelente colectânea "tejo beat" organizada pelo "mago" henrique amaro. recentemente, na última viagem lisboa-braga, vinha a ouvir o meu cd#22 de discos em mp3, curiosamente, o primeiro que gravei, no já distante 1998. a minha ideia inicial passava por ouvir superego, sérgio godinho, jorge palma e sétima legião, cujos discos também faziam parte dessa compilação de discos portugueses. deparei-me, a determinada altura da viagem, com "o monstro precisa de amigos". na altura, em que o disco saiu, cheguei a dar-lhe alguma atenção, mas depois cansei-me. nunca mais lhe tinha tocado. naquele início de tarde também não estava com grande disposição para ouvi-lo. saltei as primeiras faixas - até chegar às "notícias do fundo".
e o meu desejo também é morrer na paz do teu beijo.
I ano. e os teus olhos ainda são maiores que os meus. chupa-chupas de morango. meias às riscas. o isqueiro emprestado para tocar a mão. os cabelos. o vento. o teu cigarro nervoso. o jardim. os teus olhos. perder o autocarro. os teus olhos. o jardim de pedra.
[margarida]
porque se eu ficar quietinha, tu continuas a dormir e a luz a nascer(-te). nada desperta, se quietinha continuar a amar-te pelo cantinho dos olhos. como na primeira vez. pelo cantinho do jardim, do quarto, das mãos, do cigarro. pelo cantinho da luz que nasce. e ser assim sempre o anoitecer, quietinha, aqui, e o amanhecer pelas cidades.
[margarida]
doem-me as costas. muito. doem-me as costas quando mexo os dedos dos pés. doem-me as costas quando mexo o pescoço. e doem-me quando mexo as costas. é o tendão não-sei-das-quantas inflamado. disse o lamy. tenho-me deitado, então. e tenho passeado pela casa com as mãos nas costas. deixei um chinelo à espera. não sei bem onde nem do quê. parece-me ser uma boa noite para um passeio pelas ruas escuras. mas choverão críticas à normalidade da acção. e doem-me muito as costas. hoje terei uma noite de sono agitado. porque espero agora o fim da noite. mais tarde, o fim da manhã. e depois, o fim da tarde. e o choque dos nossos lábios. e que o choque dos nossos lábios não choque a multidão. e que o teu sorriso seja maior que o arquear dos teus braços em torno das minhas costas.
[margarida]
hoje queria contar-te o mais bonito poema e assim adormecesses tão encostado ao meu peito. o que sou hoje é forte e consigo já passear de olhos fechados pela casa. pela sala. pela janela. enquanto dormes oiço-te respirar baixinho. tão baixinho. hoje não queria ficar a decorar as manchas na parede e tudo o resto que não respira. num quarto longe. de mim. tão baixinho. só os dias vão mexendo no calendário. e eu estou extremamente onde não devia. extremamente tampouco alguma vez fui obediente. eu percebo onde quero estar. extremamente. o sempre percebido como inédito. para não chorar. hoje queria contar-te o mais bonito poema que não sei contar. e dentro de tanto papel e palavras, juntos. amanhã ainda não chegou.
[margarida]
colo o meu ouvido ao teu ouvido para ouvir o que o teu ouvido ouve. ouço o teu ouvido a ouvir o que eu oiço. ouves o meu ouvido e o meu ouvido ouve-te ouvindo. colo o meu ouvido ao teu ouvido e fico a ouvir-nos. presta atenção.
[margarida]
e então eu disse. e os poemas obedeceram-me. eu posso ver-te, pela janela, chegar à estação. eu posso ver-te pela janela esperando. me. hoje pela janela alguém me vê vendo o que não existe em mim. há tanto tempo que o corpo se esqueceu. de mim aqui sentada em cima da mesa. a ver a minha avó amparar as papas de milho. e eu aqui sentada na mesa. no sofá. no chão. na parede. o rádio do meu avô. tenho um nome para isto. sim. mas misturo-o com as minhas palavras. são erradas as minhas palavras. menos a tua. onde recrio alfabetos para dizer o que sinto. te. lembro-me desse ser o ultimo dia do ano. há muitos anos onde o corpo esqueceu. ninguém me espera do outro lado da rua. ninguém me espera em cidade alguma. tenho medo disso e. fico no carro a ouvir musicas novas e velhas. até que a bateria acabe. tu vais-me fazer saber. não vais? depois de amanhã eu vou ser. ou depois. ou depois. são duas vozes que falam. sendo elas tu e eu. eu tive-me sempre. tu tens-me agora. todos os dias converso conosco. só chego a acordo quando toco os teus lábios. tenho um coração. tenho um amor. quero correr até à parede. quero renascer no tremor de um beijo teu. vamos embora. vamos comigo, meu amor.
[margarida]
descobri uma forma de solidão. 12 horas e 47 minutos sentada com os cadernos todos abertos a olhar para um telemóvel que não tocou. descobri que não existo. que desapareci depois de ter finalmente existido. tenho um brinco mas a orelha não existe. tenho lágrimas que me molham os braços e os joelhos. mas os meus braços e os joelhos não existem. não existe a pele. não existem os olhos de onde as lágrimas partem. queria conseguir dormir. mas dormir mesmo e não este contar cíclico da respiração para não vomitar. e não este controlar dos pulmões e do estômago vinte vezes por noite para evitar o ataque de. e eu queria poder dormir. mas dormir mesmo. sem acordar nunca. se olhasses para mim, vias um brinco que não tirei. porque a transparência das lágrimas esconde a pele translúcida que não existe. e não vais tentar tocar no húmido vago. que sou eu. não se toca no que não existe pois não?. não queres tocar(-me). e eu não te censuro. eu também não me quero tocar. eu também não me quero tocar. quero dormir. apagar(-me). dormir. não tenho saído do quarto. daquele onde nunca vieste e para onde sempre te trouxe. há vários dias que tenho a janela fechada. não quero a luz e não consigo sair. não quero olhar e lembrar que existem árvores e céus e nuvens e estradas e cidades. não quero lembrar que existem cidades. não quero lembrar que existem casas e quartos. não quero lembrar o que há no avesso da janela. senão em que avesso estou eu. uma das paredes do meu quarto é de espelho. olho-me a olhar-te e não consigo. tudo existe e está aqui. tudo existe e está aqui dentro porque eu não consigo sair. e eu quero tudo aqui. se eu existisse para ti. quero dormir. devia partir-me em estilhaços. devia abrir a janela. devia dormir. devia calar-me. devia deixar de existir. quero dormir. quero.(-te). eu também não me quero tocar.
[margarida]
no bater do meu coração nos meus ouvidos quando ficavas com mais febre. na porta que abria em frente ao teu sorriso enquanto entravas e esperava por ti junto à janela. espero.
[margarida]
eu não gosto de ver o meu reflexo. mas gosto do reflexo dos teus cabelos na janela corrida da varanda. Gosto da marca das patinhas das gaivotas na areia e de abrir os olhos debaixo de água e ficar a olhar(-me). gosto de ameixas com morangos. gosto de pensar em coisas que goste quando não gosto de como me sinto. não gosto de admitir certas coisas. acho que pela primeira vez admito que tenho saudades do conservatório. às vezes tenho saudades das coisas más do conservatório. ainda bem que não me conheceste nessa altura. tinha tão menos amor por mim. ainda. Mas eu gostava de te ter conhecido sempre. espreitando o teu reflexo vitrine sim. vitrine não. pelo caminho das avenidas do crescer. gostava de te ter espreitado. gostava de te espreitar agora. pela janela. pelo quarto. pela ponta dos olhos. Tenho o pulso direito deslocado. outra vez. dói-me. principalmente a escrever. a vera tem sido incansável a ajudar-me nas aulas. mas tenho demasiados trabalhos para poder parar a mão. dói-me. tenho tantas saudades de coisas tuas. de ti. tens tantas coisas exclusivamente tuas. e quero viver só de coisas tuas. há posições do sol e ventos, à espera que eu ponha o pé na estrada, que são só teus. hoje olhei para um senhor, no autocarro, e chorei. era sapateiro. muito velhinho. perdeu tudo num incêndio. não tem ninguém. alguém lhe conseguiu arranjar emprego no centro de saúde como ajudante de jardineiro. parecia-me feliz. dói-me o pulso. imagino-te aqui. agora. mesmo sem nunca teres estado aqui. é-me mais fácil pensar em nós aí. em qualquer lugar. nosso. mas neste momento. hoje. imagino-te aqui comigo. porque me é saboroso. porque me adocica o pensamento e a voz e a vontade. cheguei a casa e não consegui cozinhar. dói-me o pulso. sinto-me inútil e a dar trabalho a toda a gente. desfiz bolachas Maria para uma tigela e juntei iogurte com pedaços de morango. sorri ao pensar no comentário que farias ao ver-me gulosa. sou tão. provavelmente obrigavas-me a ficar quietinha enquanto preparavas tudo. hoje tentei lembrar-me do nome daquele célebre clérigo que editou um livro, na idade média, que ficou muito conhecido, onde ele provava segundo a ciência e a moral e a religião que a mulher não tinha alma, ao contrário do homem que sendo provido de alma e matéria era completo. não me consegui lembrar do nome do homem. o meu irmão vai-se embora amanhã. não sei quando é que vem. vai para longe e para o frio. tenho dois trabalhos para entregar sexta feira. mais dois para entregar para a próxima semana. testes. o pulso estragado. amo-te. tanto. tanto.
[margarida]
Onde as palavras arrefecem como um vento que, à noite, se escapa por baixo da porta. Às vezes deixo escapar o vento e às vezes deixo escapar as palavras e a saudade e o vento que continua pela ruas e por mim. às vezes sinto-o abrir uma ou outra brecha perto do ouvido, quando me deixo deslizar pela pele áspera e fria da sala, e me deito no chão a sentir a ternurenta queda das cinzas na parede do meu corpo. nunca ouvi esse vento chamar por mais ninguém, aqui. meu amor.
[margarida]
Hoje roubei todas as rosas dos jardins
e cheguei ao pé de ti de mãos vazias
Eugénio de Andrade
[margarida]
... amanheço no secreto movimento das tuas pálpebras docemente fechadas nos segredos dos lábios leves sobre os teus. Não te quero acordar. Quero-te ainda ancorado à cama que desfizemos, os dois. Espreito a janela que nos vai relembrando que existem dias e noites e mar, longe daqui. Sento-me perto de ti e fico a ouvir-te respirar no nosso quarto, a sentir os movimentos do teu peito, a decorar os teus cabelos na minha almofada, a linha perfeita do teu queixo de menino, o teu pescoço esticado, os teus dois dedos enrolados no lençol, os teus lábios sonolentos da cor da manha...
[margarida]
Nunca vos aconteceu ver nas nuvens as caras das pessoas de quem gostam? A mim acontece-me. Sempre olhei para o céu. Em cada nuvem sempre vi o rosto de quem gosto e ainda não sabia dos seus traços. Não há duas nuvens iguais. É assim que quero morrer, porque sempre vivi assim, a olhar para o céu. E sempre viverei a perguntar a mesma coisa... e a amar a mesma nuvem. Eu vejo sempre o mesmo rosto nas nuvens.
[margarida]
Margarida na flor cuja mão é
os teus seios se
bem te digo o que penso olhado foi e é
como uma flor . se colhe ou não . se não se
colhe morre . pinga
uma coisa viscosa do caule, naturalmente . por
certo há que chorar . chora a
margarida .
(antónio tavares manaças . "estar ou a cabeça na barriga")
eu sei onde me quero perder . eu sei onde me quero encontrar . eu não sei nada sobre tanta coisa . nós eramos pássaros livres a correr por um ninho de amores e sensações gigantes sem apitos e leis . nós somos o vínculo maiúsculo no jardim de inquietantes seduções, as cores de um rio e as suas pegadas aquáticas, as reticências do último verso do nosso poema sobre o tejo às quatro e um quarto. um . sempre . que se descobre e desdobra . hoje: rumo à próxima estação - o infinito do nosso quarto fechado e as flores que caminham entre o crepúsculo e a alvorada . amanhecer abraçados . o frio esquecido junto com as gotas de chuva, os pinguins e o gelo sinuoso, os sinais de nevoeiro e os restos de tudo . correr para os pecados adocicados . entardecer nos miradouros das nossas cidades - como um abrigo - que não são de mais de ninguém. parar aí, porque o sentido desbrava as fronteiras e as distâncias, depois de o encontrarmos enquanto nadamos um para o outro. como na primeira carta . como na primeira viagem . como no primeiro beijo . o amor (sobre)vive .
Esta noite sonhei que ia pela N10 para Corroios, a meio da noite, e que, no caminho, o carro explodiu. O que doía não era ter explodido com ele, eras tu sem mim. Acordei para descobrir que eu tinha mesmo ardido.
[margarida]
Parar-te para olhar-te no vento, perto do tempo, no momento em que parei o vento e o tempo, a parar-te para olhar-te nos dedos perto dos medos, fora dos meus segredos a esconderem-te os dedos e os medos a parar-te para olhar-te na canção, perto da razão a parar-te a canção e a cortar o cordão a parar-te para olhar-te, meu amor, perto do calor, antes do tremor, pelo qual parei o amor e o calor a parar-te para olhar-te, meu amor.
[margarida]
Quando saio às sete e meia oito horas e venho a pé pela avenida, encontro sempre a mesma carrinha enorme da GNR de transporte de cavalos, parada no mesmo sinal vermelho. O sinal fica sempre vermelho. Os cavalos fazem, como eu, sempre o mesmo caminho, mas ainda mais tristes são eles, coitados, porque deve ser bem mais doloroso para um cavalo ser conduzido a algum lado senão pelas próprias patas. Eu também não gosto de ser conduzida. Sou péssima passageira, por isso ou conduzo ou vou a pé. É curioso que sempre, no momento em que os encontro, estou a ouvir uma música importante. Eles ouvem apenas o motor da carrinha e as travagens e buzinas por eu ter ficado parada na passadeira a olhar para eles. E não faz sentido...
fazes-me tanta falta
[margarida]
Às vezes as folhas tapam todos os portões. Às vezes as minhas mãos esquecem-se deles. As folhas agarram-se às rugas dos tapetes abandonados dentro de casa, aos lençóis esquecidos no amarelecer dos dias abandonados, à água suja do lavatório entupido onde te deixei o último bilhete. Ninguém vive mais aqui. As folhas colam-se às palavras que não devia ter dito. Rastejam pelo chão arranhado da cozinha destruída, pelos vidros partidos, espalhados pelas roupas antigas caídas, pela mesa de madeira escurecida, na sala, pelos armários que nunca ousei abrir. Nunca ouvi cá ninguém chamar por ninguém. às vezes sinto abrir uma ou outra brecha perto do ouvido, quando me deixo deslizar pela pele áspera e fria da sala, e me deito no chão a sentir a ternurenta queda das cinzas na parede do meu corpo. Há muito tempo que vivo, e ninguém sabe que voltei, aqui.
[margarida]
Porque quando o coração se parte, vai rolando pelo corpo, por entre a roupa que não aquece, por entre o sapato que magoa, pelos cabelos presos à pressa ao vento. Parte-se em bocadinhos pequeninos que vou apanhando discretamente para ninguém ver. Quando vou na rua tento esconde-los nos bolsos, e depois no cabelo, e depois nas mãos. Às vezes são muitos e enchem-me os bolsos e as mãos, e corro aflita para uma rua, onde, sozinha, ninguém me veja junta-los no chão e tentar fazer deles uma forma bonita para fechar, então, os olhos e ver-te a sorrir, a falar, a amar, a dormir, a cantar, a voar para mim. Quando abro os olhos, o chão está limpo e esses bocadinhos de coração transformaram-se em pele e colaram-se por mim. Volto ao caminho das pessoas apressadas e preocupadas comigo, vou, entretanto, voltando a guardar no bolso o que se vai partindo em de mim. Há vezes em que começo a senti-los a passarem na garganta e a ficarem-me na boca, enquanto falo com alguém conhecido, então tento distrair o olhar das pessoas e guarda-los de baixo da língua ou, se conseguir, tira-los e mete-los entre os dedos. Não consigo nunca evitar que alguns bocadinhos mais ásperos me cortem as mãos enquanto os escondo. Abro as mãos e fico a contar os risquinhos de sangue até perder os sentidos, pois nunca aguentei muito o sangue. Quando recupero os meus sentidos, tento juntar os bocadinhos que se espalharam e tento correr para longe dali. Quase nunca tenho para onde ir. Sei que muitos são os bocadinhos que ficam nos sulcos entre as pedras da calçada, onde não consigo fazer chegar os dedos, alguns rolam até ao limite da ponte e caem ao rio, outros deixo cair, sem querer, na falha entre o chão e o metro, alguns ficam pousados entre os nossos corpos, nesse espaço entre nós... para fechar, então, os olhos e ver-te a sorrir, a falar, a amar, a dormir, a cantar, a voar para mim.
[margarida]