
- os meus voos são muito desajeitados.
- todo o voo honesto o é.

Eu fumaria os teus cigarros em frente ao espelho. Tu escreverias os meus poemas sobre o joelho. E vestiríamos de manhã as roupas um do outro, como se elas nos servissem.
jorge cruz.roupas.
oito de dezembro.

La historia es nuestra y la hacen los pueblos.
Salvador Allende
[margarida]

dói, mas não como uma dor. mais como um estilhaço que ecoa no grito ou embacia no cansaço. procuro dentro de mim, como um bolso, no avesso. esvazio os bolsos e procuro-me. toca um telemovel e eu paro-me, caem os braços, um a um, num cansaço. paro. podias não perguntar a cor do meu cabelo. mas bastava perguntares a cor do meu cabelo. now that i know that i did not know you, now that i know thati did not know you, now that i know that i did not know you then.

[margarida]

é, quase sempre, surdez. É preciso, sim, ter medo até ao fim.
[margarida]

atira-se uma pedra, a primeira. depois ficamos dois à escuta. como quem agarra um braço e depois outro, para não se ir embora. todos o fazemos. suspensa, escuto, também, essas improváveis ressonâncias. agarra-se, depois, uma perna e outra para não deixar ninguém ir embora. a pedra, a primeira, atira-se e a noite dilata entre o meu corpo e o teu. acaso não é que seja eu pedra.
[margarida]
Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.
manuel antónio de pina.



e neste silêncio
há sempre um voltar
do sonho
ao nosso lugar
e a estrela
que vagueia no mar
anseia
o céu .
e só quero estar
sem mais
depois do regresso...
sim,
só quero estar
sem mais
depois do regresso...
joão loureiro / ban.

There is no love where there is no bramble, there is no love on the hacked-away plateau, and there is no love in the unerring
(...)
So bury me in wood and I will splinter, bury in stone and I will quake, bury me in water and I will geyser, bury me in fire and I'm gonna phoenix, I'm gonna phoenix.

uma rapariga disse-me: não há de que ter medo. as coisas doces e bonitas continuarão aí quando conseguires acordar. eu estava acordado, por isso imaginei que era ela que estava a dormir.
slide slide. slippity slide. you can hip hop, and don’t stop.
I’ll never be on my knees.
[handsome boy modeling school + I’ve Been Thinking *Cat Power]

que noite o silêncio das coisas significa?* ninguém sabe que mata ou morre. ou que jamais houve um silêncio que desse vida. o primeiro eco. as mãos que me vivem. o grito. jamais houve um grito que fosse morte. o som dentro da boca. depois paramos e vemos que estamos parados. em que palavras pensas? jamais saberei que tudo está vazio. que tudo se reduz à respiração. mas por favor, continua. em que palavras pensas?
*Armindo Rodrigues, Beleza Prometida.
[margarida]


...it's like me hidding from everyone.
[banda sonora | Kristofer Åström + a matter of seconds]
[margarida]

não tanto chegar, mas partir, é importante. viver lúcida. a voz impermeável e a luz apagada. exercício de palavras para dormir. não parti.
oh, that was so real.
[banda sonora | jeff buckley + so real]
[margarida]

in your eyes, i take my vacations
[banda sonora | ilya + soleil soleil]
[margarida]

¿Que se hace? ¿como continuar? Porque yo voy de lleno voy y despues me encuentro con la intensidad y yo se, porque lo vivi es mejor ser leve ante la ansiedad. ¿Que te digo?¿como explicar? Que yo voy cambiandome porque hay mas de una razon para regalarme la tranquilidad. ¿Que se hace?¿como preguntar? porque yo voy soltandome y me voy quedando en la profundidad y despues cuesta comprender que no todos bajan y hay que regresar. ¿que se hace?...

’lá embaixo ainda anda gente e uma cara conhecida vai abrindo no escuro uma luz como uma ferida. como a luz que corre atrás da corrida de um cometa. e vejo vales e valados no sopé de uma valeta. lá em baixo ainda anda gente e uma cara conhecida vai ateando noite fora um incêndio na avenida. toda a gente passou horas em que andou desencontrado como à espera do comboio na paragem do autocarro’.
[ banda sonora | sérgio godinho + lá em baixo ]
[margarida]


neste momento em que escrevo, percebo que não quero nunca decepcionar-te. confirmo sempre o número de dedos por mão. pés por perna. um cinzeiro e uma toalha. tenho a mania de desligar coisas. acordo a meio da noite para desliga-las ou confirma-las. com cuidado. um ritual inutil que me basta para me achar maestro desse horizonte habitacional. acho-me heroina, por isso, e não consigo dormir depois. não quero decepcionar-te nunca. olho o teu sorriso, adormecido, e tenho sono e mapas. gosto da tua beleza de harpa. beijo-te e o teu sorriso fica colado à minha boca. confirmo então, mais uma vez, o numero de dedos, de pés, de olhos, de isqueiros e de pestanas. confirmo o percurso da luz a nascer pela verdade obliqua da nossa cama e das nossas pernas. não quero decepcionar-te nunca. amo-te.
[margarida]

o aguaceiro, breve e inesperado, não é pior que a pesada e interminavel chuva. apressamos, então, os passos e abrigamo-nos nos beirais das portas. contudo, molhamo-nos sempre. saimos de casa preparados para a grande chuva. para o grande vento. apressamo-nos igualmente pelas ruas, abrigamo-nos em varandas e portas, pelos cantinhos das cidades. molhamo-nos sempre. preparados ou não. de igual maneira. e de igual maneira, não preciso de fazer sentido. de igual para igual.
[margarida]

no rain on us.
not this
time.
[banda sonora: club 8 + mornings]
[margarida]

je rêve d'un printemps
définitif.
[banda sonora: benjamin biolay + négatif]
[margarida]

tacteio muito. estou sempre a cortar-me e a queimar-me. tenho a mania das coisas fechadas. as portas fechadas. as gavetas encaixadas. as canetas tapadas. os livros virados para baixo. o cabelo amarrado. as luzes apagadas. os guardanapos dobrados. os fósforos perfeitamente arrumados e guardados. os fechos dos vestidos corridos. colcheias, botões, tudo encaixado. as janelas tapadas. os pés calçados. o papel dos rebuçados perfeitamente enrolado.
[ banda sonora | azure ray + rise]
[margarida]

a minha casa é de água. onde escorro pelas paredes. precipito-me. pela casa de água, onde respiro.
(levo-a comigo). raramente uma frase começa com maúscula e acaba com ponto. raramente uso as portas
ou as janelas. sei de cor, no escuro, as nossas paredes. o nosso chão.
[margarida]

deixo os tiros para os mais corajosos. ponho-me de costas para o mar e oiço. e se é verdade que o nosso
corpo é o nosso templo, então tenho reclamações a fazer. quanto à quantidade de dedos em cada mão.
quanto ao peso da cabeça e a sua localização. insisto muitas vezes nas cores das memórias. insisto muitas
vezes em tudo. insisto. enquanto insistirem em inventar coisas, o dicionário nunca estará completo. antes
de inventarem a fotografia, não existia o verbo fotografar. existe, então, a palavra utopia. existo também.
esta casa é amarela e sempre que desligo as luzes sei que as paredes desaparecem e o chão fica pequenino.
a minha passagem pelo absurdo é o acordar de manha. a minha passagem pelo absurdo é tentar esconder
o quanto sou absurda. e a sede. a minha casa de água, onde deslizo pelas minhas próprias paredes. a
minha casa de água. que não se vê. ...quero ir para aí.
[margarida]

imensamente nos deitamos um no outro
e não mais nascemos para a mão escura
que tapa o sol e afoga a lua
estamos como se tudo estivesse connosco
e connosco estivessem os nomes que primeiro se deram
flor rio azul estrela terra.
vasco gato.

às vezes tenho espelhos em vez de janelas. às vezes parto os espelhos e abro as janelas. às vezes. não.
muitas vezes pergunto para que servem as janelas e muitas vezes pergunto para que servem os espelhos.
respiro tão bem quando tenho as tuas janelas em vez dos meus espelhos. apago a luz e fecho os olhos. tu
respondes-me sempre. e tu vês-me sempre. o espelho, não.
[margarida]

-amo com os dedos o silêncio que, por vezes, habitamos.
(margarida)
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cada vez anoitece mais cedo .
asylum mastered the world . through the window he's cutting the coal . madness, the kids in a song . to touch the naked soul . confusion erupts again . they bleed their own hands . the silence lives in ashtrays . all bodies are made out of clay . oh, you vicious liars ...
kafka .

espero um momento na sombra da rua. oiço uma voz que me lembra a tua. [mesa]
[margarida]

...drinking whiskey for no reason, because I heard in a song, that's what you do when things go wrong.
[banda sonora | aroah + drinking whiskey]
[margarida]
estamos sós com a noite
para salvar
um coração.
josé tolentino mendonça.

porta a porta quero entrar
e sei que vou
sem usar nenhuma roupa
que a moda cansou
ando sem andar
e perco-me a cantar
não quero saber
tenho alma só pra
ser
e não quero saber
vem comigo
seguindo a gente
que ninguém quer saber
tiago torres da silva.

sei que te vou reconhecer
rosto perdido na multidão

sei nesse instante também hás-de me ver
na tua mão
tiago torres da silva.