
pelos teus olhos
vejo, em ti
me vejo, te vejo
em mim.
(albano martins)

nós estamos aqui para fugir, nós estamos aqui para chegar
de vez.
(vasco gato)

vem aos meus sonhos,
faz em mim a tua casa.
(josé agostinho baptista).

come with me
there’s something you should see
in the evening sky
put on your warmest coat
we’ll be breathing ghosts
and they don’t want us to see
so they join the clouds
which clot above our heads
but on a clear night,
if you look close enough
you can just make out love
and other planets
we are not alone
and normally
it’s bright enough to see
with a naked eye
i held you close to me
and i felt you smile
and you whispered in my ear
i know it’s there
let’s make our own light
but on a clear night
if you look close enough
you can just make out
love and other planets
we are not alone
and on this clear night
if i hold you close enough
i can feel love.
uma das canções mais bonitas de 2006.

come to me my baby
come to me my love
come to me my darling tonight
'cause i'm here tonight
on my own all night
'cause i'm here tonight
gonna love you so right
you're the best thing in my life.
[archive | come to me 1]

love me, love me
say you do
let me fly away
with you
we're creatures of the wind
wild is the wind
give me more than one caress
to satisfy this hungryness
we're creatures of the wind
wild is the wind
you touch me
i hear the sound of mandolins
you kiss me
with your kiss my life begins
like a leaf clings to a tree
baby please cling to me
we're creatures of the wind
wild is the wind
you touch me
i hear the sound of mandolins
and you kiss me
with your kiss my life begins
love me, love me
say you do
let me fly away
with you .

morrer de amor
ao pé da tua boca
desfalecer
à pele
do sorriso
sufocar
de prazer
com o teu corpo
trocar tudo por ti
se for preciso.
(Maria Teresa Horta)
onde é aqui,
o centro,
onde se respira,
a cama limpa
ao corpo inteiro e nu.
onde é a fome e o braço toca
o esplendor.
respira o ventre,
a vela incha
ao sol e ao mar sem fim.
onde é aqui,
a fome nua,
a árvore exacta
no centro
da alegria,
a luz e o olhar
aberto ao mar.
onde é onde
a mão sabe
a carícia da anca
e a língua fabrica
o seu sabor a sol.
onde o fogo acende
o pulso do poema.
(António Ramos Rosa)
a minha alegria é o aroma de tangerina nos dedos,
comer aos gomos a paisagem
e limpar depois
a boca
à manga do espanto.
Tu puxas-me
e somos duas crianças
num trilho de mata
num banco de pedra,
num portão verde dividindo
o aqui e o ali.
Porque nós estamos aqui.
Aqui onde te entrego os meus bolsos,
e - repara - as tuas mãos cabem.
Nós estamos aqui.
Menina do rio na tua canoa de silêncios, a tua voz enrola-se na minha voz como prédios
e sombra numa cidade, como leite e açúcar na infância, como
o destino de um navio.
Atravesso quilometricamente a pobreza deste reino para te ver, para te ver uma bússola de neve,
uma corda vermelha, a destreza de um telhado através dos
dias.
Tu não precisas falar uma outra língua, o persa é uma língua que nos chega! Tu não precisas oferecer-me
portas e milhares de portas, basta que apareças.
Que apareças nesta fogueira de bruxas, na inquisição canina de uma época longe, muito longe,
dolorosamente longe da magia de um homem e de uma mulher.
Nós estamos aqui para arder pelo nosso corpo completo.
Tu e eu, leões estirados ao sol,
harpa para os nossos dedos quentes,
poema numa sala de lâminas.
Nós estamos aqui para fugir, nós estamos aqui para chegar
de vez.
(Vasco Gato)
Hesito muito antes da palavra.
porque um precipício se abre nela
e não tem sentido,vibra apenas.
porque pode ser a morte
ou o nascimento para um lugar
de cores e fadas e barcos de sol.
porque me doem as mãos
cada vez que tento segurar
o mundo em traços redondos quadrados.
por isso te digo:hesito e morro e nasço.
e corro para a rua com a força de quem
vai anunciar gritar chamar dizer.
mas lá fora sorrio apenas
enquanto caminho para um banco
de jardim,devagarinho,
como se por um momento
eu soubesse o nome de tudo
e tudo tivesse o mesmo nome.
(Vasco Gato)
ficamos a tocar até perto das seis da manhã. acordei agora, lento, mas quase solarengo, como o dia. queria ler-te o poema antes de (te) dizer o (teu) nome.
"E se inventássemos o mar de volta? e se inventássemos partir, para regressar? Partir e aí nessa viajem ressuscitar da morte às arrecuas que me deste. Partida para ganhar, partida de acordar, abrir os olhos, numa ânsia colectiva de tudo fecundar, terra, mar, mãe… Lembrar como o mar nos ensinava a sonhar alto, lembrar nota a nota o canto das sereias, lembrar o depois do adeus, e o frágil e ingénuo cravo da Rua do Arsenal, lembrar cada lágrima, cada abraço, cada morte, cada traição, partir aqui com a ciência toda do passado, partir, aqui, para ficar…"
(José Mário Branco, FMI)
senti, ao longo do dia, vontade de te dizer coisas. amanhã, que é já hoje, também. é hora de adormecer com pedacinhos de revolução nos auriculares. bom dia.
indagamos juntos o silêncio.
a aurora trespassou
as cortinas púrpura
e abrasou os sentidos.
a estrada despertava-nos
como se… sibilasse:
sozinhos – eu e tu.
do outro segmento do traço contínuo,
o jaime imerso
no seu coração
vociferava:
mais vale só do que
sozinho (no meio da multidão)
tu porfiavas o calcanhar do vento,
enquanto que mil e uma vozes
rumorejavam a ausência…
que quase diz um nome.
o meu não, o meu não, o meu não, o meu não.
(que quase diz, que quase diz um nome, que quase diz, que quase diz um nome)
(o da sombra, que na gare, depois do mar e antes da ida, arremeda os dias).
quando acabar
resistirá sempre uma dúvida:
o que é verdade?
o que foi mentira?
dissipamos o novelo de erros
somamos e subtraímos
o tempo em jogos verbais
se já não chegam as palavras
desfiadas em tristeza escura
estrado de canções novas e velhas
que perduram
mesmo quando a luz e o som
cessam.
quando acabar
resistirá sempre uma angústia:
o que existe?
o que deixou de existir?
os poemas desdobram-se
em múltiplas formas de solidão
onde o respirar omite
os dias de sol e as pequenas coisas
desfiguradas em febre, chuva
e nas lágrimas dos vultos que
crescem nas paredes oprimidas
de saudade
quando os nossos corações
soavam como se fossem um.
quando acabar
despertamos tarde
com a certeza que o nosso
amor não acabou
com a certeza que
o amor acabou.
na alvorada eu vi a chuva chegar
atrás da estrada
abandonada
eu vi o vento mudar
na alvorada
atrás da estrada
eu vi o vento mudar
na alvorada
atrás da estrada
eu vi a chuva
no sol do lado de lá
ver-te partir
e ficar à tua espera
correr para ti
e ver-te fugir
na sombra de uma esfera
perder-te ao longe
e ver-te
atrás do sol, do vento, da chuva
e na fuga distante do tempo
ao longe
abandonada
no sol do lado de lá
[nas margens desse rio o mistério
os frutos dele e o silêncio que dele fica
para sempre
quando os frutos
apodrecem]*
na alvorada
atrás da estrada
eu vejo o vento
na alvorada
atrás da estrada
eu vejo a chuva
na alvorada
atrás da estrada
eu vejo o mundo
parar.
* manuel afonso costa
de todos os contos
por nós transformados
em lágrimas tristes
sobra um silêncio
sussurado
no brilho derramado
em escuridão
todos partem
em impulsos irritados
com os olhos costurados
pelas amarras
do objecto
da nossa afeição
todos partem
menos eu
e o estrondear
do teu brado dorido
em mofino fado.
dissipo-me. possa eu ouvir-te e dissipar-me à flor da terra, comigo. talvez se construam caminhos que não se pisem nunca. mas faz-se eterna a hora de hoje. e a medir-me, insensível, acho a fragilidade. erro a poça. perene, nos meus sapatos-para-a-chuva, durante o verão. faz-se flor a mão que deixei cair. uma a uma. são vagas as pétalas. as palavras que se afloram na garganta. e morrem dentro da boca. dissipo-me. possa eu ouvir-te gritar. ecoar. límpido e imenso: a voz. nisto se igualam as mãos: a voz. só nisto teimo em forçar a memória. uma a uma: na voz dissipam-se as mãos.
[margarida]
eu não oiço. não ouve ninguém o que eu oiço. eu não oiço. o meu quarto, o meu corpo. não ouve ninguém que cai pó das paredes. há fendas onde as mãos adivinham a calosidade do cimento, como escoriações. há pó em cima da pele. pó em cima dos desenhos. como os primeiros traços do mundo, aqueles que fora das margens desenharam um quadrado e, ao lado, um olho. aquele a que chamaram ”Cão”. e esse olho era da cor do pó. esse foi o primeiro olho que existiu. os primeiros traços do mundo no pó do meu corpo. eu não oiço. mas o pó também mora nos dedos, que se levam à boca, e essa foi a primeira boca que existiu. é aqui que mora todo o pó do mundo. eu não oiço. não houve ninguém que ouvisse. ama-me agora se queres ver. tu não me ves. eu não oiço.
[margarida]
como um alfinete que se confunde com o chão. lembras-te? de noite há montras luminosas e luzes na chuva e passos que escorregam. cá dentro há mãos que não encontram nada nos bolsos. quase mãos, quase mangas. confundo-me. um dia agrafei o polegar. quase que não me lembrava. posso tactear o polegar com os dedos que me restam. mas se eu me esquecer - e tu não o vires - não existe o meu polegar. não foram ainda inventados os agrafos. se eu não me lembrar. nenhum grito infantil instaurou nenhuma vírgula. ninguém veio a correr. eu não chorei. não te podes lembrar. uma vez deram-me beijinhos na nuca enquanto tocava o sangue de uma ferida. duas mãos, firmes, seguravam-me os ombros enquanto ardia o algodão na carne. penso que pontapeio alfinetes sem dar conta. ando descalça pelas várias divisões. ignoro a formalidade das salas de estar quando estou. encaracolo os dedos dos pés enquanto me esqueço de estar. escondo um pé no outro. desequilibro-me e caio. como um alfinete, confundo-me com o chão. piso-me. mas se eu não me esquecer - e tu não o vires - ninguém deixará de pisar. nenhum grito me denunciará. não podes ver. se chorar e me esquecer, não chorei. tu não me vês.
[margarida]

é demorado o retorno a casa. a nostalgia medra a cada canção, alastra-se à imolação do que cessamos e à náusea do que ainda falta esquadrinhar. o que não consigo omitir goteja mais violentamente quando o sol tomba e emerge o que subsiste ao cansaço e à magoa inefável do extravio: umnadaqueéquasetudo.

qual é a derradeira recordação que reservas de quem já não amas? numa abordagem ligeira e sem me apear nas minúcias, a imagem, por mais remota que seja, pode não ser muito díspar da anamnese de quem amo. por vezes, conseguimos sintetizar as lembranças na velocidade e nas faixas de duas vias. como quando o táxi transpõe o autocarro apinhado de gente, mas lobrigamos um rosto distinto à janela. mesmo que por instantes escassos, ainda para mais embaciados, percebi o que indagavas. quando nos aferrolhamos em nós próprios, os discos são muito mais o mal do que a cura e o silêncio desfigura uma linha recta numa estrada inundada de curvas, incómoda e pouco apetecível.

há um espaço minguado entre o tudo e o nada, que acalenta o som das canções que o mutismo das palavras nos obstou. residiamos num jardim indecoroso tangente ao tempo estagnado na haste das plantas. hoje, no calvário, contemplei uma velha com cabelos cor de mel. ela sorriu ao de leve e, algures entre o esconso e o tremido, asseverou: há lábios maravilhosos, mas esses só se podem beijar uma vez.
dissipo. possa eu ouvir-te dissipar-me. à flor da terra. comigo. talvez se construam caminhos que não se pisem nunca. insensível. fez-se eterna a hora de hoje. mas a medir acho a fragilidade. erro a poça. perene, nos meus sapatos-para-a-chuva. fez-se flor a mão que deixei cair. uma a uma. são vagas as pétalas. as palavras que se afloram na garganta. e morrem dentro da boca. comigo. dissipo-me. possa eu ouvir-te gritar. escoar. límpido e imenso. a voz. nisto se igualam as mãos: a voz. só nisto teimo em forçar a memória. uma a uma. dissipam-se, as mãos.
[margarida]
se me abraçares
conto-te uma história
de encantar
para suspirar
e ver-te adormecer
como uma criança
sinto tanto frio
ou não fosse natal
mas hei-de resistir
a mais um ano
só para te ver sorrir
só para te sentir
hoje apetece-me ouvir
a banda sonora
do meu funeral
com a minha vontade
de te voltar a mentir
se me abraçares
talvez encontre a verdade
talvez até me esqueça
da minha vingança
para poder beber
à nossa esperança
(a nossa esperança).