nave dos suspiros | escritos


lishbunah v

quinta-feira, 8 fevereiro 2007




pelos teus olhos
vejo, em ti
me vejo, te vejo
em mim
.

(albano martins)


lishbunah iv

quinta-feira, 8 fevereiro 2007




nós estamos aqui para fugir, nós estamos aqui para chegar
de vez
.

(vasco gato)


lishbunah iii

quinta-feira, 25 janeiro 2007




vem aos meus sonhos,
faz em mim a tua casa.



(josé agostinho baptista).


lishbunah ii

segunda-feira, 22 janeiro 2007




come with me
there’s something you should see
in the evening sky
put on your warmest coat
we’ll be breathing ghosts
and they don’t want us to see
so they join the clouds
which clot above our heads

but on a clear night,
if you look close enough
you can just make out love
and other planets
we are not alone

and normally
it’s bright enough to see
with a naked eye
i held you close to me
and i felt you smile
and you whispered in my ear
i know it’s there
let’s make our own light

but on a clear night
if you look close enough
you can just make out
love and other planets
we are not alone
and on this clear night
if i hold you close enough
i can feel love.



uma das canções mais bonitas de 2006.


lishbunah i

sexta-feira, 19 janeiro 2007




come to me my baby
come to me my love
come to me my darling tonight
'cause i'm here tonight
on my own all night
'cause i'm here tonight
gonna love you so right

you're the best thing in my life.

[archive | come to me 1]


wild is the wind

segunda-feira, 1 janeiro 2007




love me, love me
say you do

let me fly away
with you

we're creatures of the wind
wild is the wind

give me more than one caress
to satisfy this hungryness
we're creatures of the wind
wild is the wind

you touch me
i hear the sound of mandolins
you kiss me
with your kiss my life begins

like a leaf clings to a tree
baby please cling to me
we're creatures of the wind
wild is the wind

you touch me
i hear the sound of mandolins
and you kiss me
with your kiss my life begins

love me, love me
say you do

let me fly away
with you .


as pequenas coisas

sábado, 9 dezembro 2006

as pequenas coisas


morrer de amor
ao pé da tua boca
desfalecer
à pele
do sorriso
sufocar
de prazer
com o teu corpo
trocar tudo por ti
se for preciso
.

(Maria Teresa Horta)



onde é aqui

sexta-feira, 8 dezembro 2006

onde é aqui,
o centro,
onde se respira,
a cama limpa
ao corpo inteiro e nu.

onde é a fome e o braço toca
o esplendor.
respira o ventre,
a vela incha
ao sol e ao mar sem fim.

onde é aqui,
a fome nua,
a árvore exacta
no centro
da alegria,
a luz e o olhar
aberto ao mar.

onde é onde
a mão sabe
a carícia da anca
e a língua fabrica
o seu sabor a sol.

onde o fogo acende
o pulso do poema
.

(António Ramos Rosa)



estar aqui, ficar aqui

quinta-feira, 7 dezembro 2006

a minha alegria é o aroma de tangerina nos dedos,
comer aos gomos a paisagem
e limpar depois
a boca
à manga do espanto.
Tu puxas-me
e somos duas crianças
num trilho de mata
num banco de pedra,
num portão verde dividindo
o aqui e o ali.
Porque nós estamos aqui.
Aqui onde te entrego os meus bolsos,
e - repara - as tuas mãos cabem.

Nós estamos aqui.

Menina do rio na tua canoa de silêncios, a tua voz enrola-se na minha voz como prédios
e sombra numa cidade, como leite e açúcar na infância, como
o destino de um navio.
Atravesso quilometricamente a pobreza deste reino para te ver, para te ver uma bússola de neve,
uma corda vermelha, a destreza de um telhado através dos
dias.
Tu não precisas falar uma outra língua, o persa é uma língua que nos chega! Tu não precisas oferecer-me
portas e milhares de portas, basta que apareças.
Que apareças nesta fogueira de bruxas, na inquisição canina de uma época longe, muito longe,
dolorosamente longe da magia de um homem e de uma mulher.

Nós estamos aqui para arder pelo nosso corpo completo.
Tu e eu, leões estirados ao sol,
harpa para os nossos dedos quentes,
poema numa sala de lâminas.

Nós estamos aqui para fugir, nós estamos aqui para chegar
de vez.

(Vasco Gato)



uma manhã de sol

domingo, 3 dezembro 2006

Hesito muito antes da palavra.
porque um precipício se abre nela
e não tem sentido,vibra apenas.
porque pode ser a morte
ou o nascimento para um lugar
de cores e fadas e barcos de sol.
porque me doem as mãos
cada vez que tento segurar
o mundo em traços redondos quadrados.

por isso te digo:hesito e morro e nasço.
e corro para a rua com a força de quem
vai anunciar gritar chamar dizer.
mas lá fora sorrio apenas
enquanto caminho para um banco
de jardim,devagarinho,
como se por um momento
eu soubesse o nome de tudo
e tudo tivesse o mesmo nome
.

(Vasco Gato)



ficamos a tocar até perto das seis da manhã. acordei agora, lento, mas quase solarengo, como o dia. queria ler-te o poema antes de (te) dizer o (teu) nome.


partir para ficar, partir para voltar

sábado, 2 dezembro 2006

"E se inventássemos o mar de volta? e se inventássemos partir, para regressar? Partir e aí nessa viajem ressuscitar da morte às arrecuas que me deste. Partida para ganhar, partida de acordar, abrir os olhos, numa ânsia colectiva de tudo fecundar, terra, mar, mãe… Lembrar como o mar nos ensinava a sonhar alto, lembrar nota a nota o canto das sereias, lembrar o depois do adeus, e o frágil e ingénuo cravo da Rua do Arsenal, lembrar cada lágrima, cada abraço, cada morte, cada traição, partir aqui com a ciência toda do passado, partir, aqui, para ficar…"

(José Mário Branco, FMI)



senti, ao longo do dia, vontade de te dizer coisas. amanhã, que é já hoje, também. é hora de adormecer com pedacinhos de revolução nos auriculares. bom dia.


ausência (que quase diz um nome)

sábado, 25 novembro 2006

indagamos juntos o silêncio.
a aurora trespassou
as cortinas púrpura
e abrasou os sentidos.
a estrada despertava-nos
como se… sibilasse:
sozinhos – eu e tu.

do outro segmento do traço contínuo,
o jaime imerso
no seu coração
vociferava:
mais vale só do que
sozinho (no meio da multidão)

tu porfiavas o calcanhar do vento,
enquanto que mil e uma vozes
rumorejavam a ausência

que quase diz um nome.
o meu não, o meu não, o meu não, o meu não.

(que quase diz, que quase diz um nome, que quase diz, que quase diz um nome)
(o da sombra, que na gare, depois do mar e antes da ida, arremeda os dias).


quando acabar

sexta-feira, 24 novembro 2006

quando acabar
resistirá sempre uma dúvida:
o que é verdade?
o que foi mentira?
dissipamos o novelo de erros
somamos e subtraímos
o tempo em jogos verbais
se já não chegam as palavras
desfiadas em tristeza escura
estrado de canções novas e velhas
que perduram
mesmo quando a luz e o som
cessam.

quando acabar
resistirá sempre uma angústia:
o que existe?
o que deixou de existir?
os poemas desdobram-se
em múltiplas formas de solidão
onde o respirar omite
os dias de sol e as pequenas coisas
desfiguradas em febre, chuva
e nas lágrimas dos vultos que
crescem nas paredes oprimidas
de saudade
quando os nossos corações
soavam como se fossem um.

quando acabar
despertamos tarde
com a certeza que o nosso
amor não acabou
com a certeza que
o amor acabou.


no sol do lado de lá

quarta-feira, 22 fevereiro 2006

na alvorada eu vi a chuva chegar
atrás da estrada
abandonada
eu vi o vento mudar

na alvorada
atrás da estrada
eu vi o vento mudar
na alvorada
atrás da estrada
eu vi a chuva
no sol do lado de lá

ver-te partir
e ficar à tua espera
correr para ti
e ver-te fugir
na sombra de uma esfera
perder-te ao longe
e ver-te
atrás do sol, do vento, da chuva
e na fuga distante do tempo
ao longe
abandonada
no sol do lado de lá

[nas margens desse rio o mistério
os frutos dele e o silêncio que dele fica
para sempre
quando os frutos
apodrecem]*

na alvorada
atrás da estrada
eu vejo o vento
na alvorada
atrás da estrada
eu vejo a chuva
na alvorada
atrás da estrada
eu vejo o mundo
parar.

* manuel afonso costa


polyester

terça-feira, 14 fevereiro 2006

polyester

abençoado fim.


t

quinta-feira, 1 dezembro 2005

de todos os contos
por nós transformados
em lágrimas tristes

sobra um silêncio
sussurado
no brilho derramado
em escuridão

todos partem
em impulsos irritados
com os olhos costurados
pelas amarras
do objecto
da nossa afeição

todos partem
menos eu
e o estrondear
do teu brado dorido
em mofino fado.


é estranho e invulgar voltar a ler coisas que tenha escrito

domingo, 3 julho 2005

dissipo-me. possa eu ouvir-te e dissipar-me à flor da terra, comigo. talvez se construam caminhos que não se pisem nunca. mas faz-se eterna a hora de hoje. e a medir-me, insensível, acho a fragilidade. erro a poça. perene, nos meus sapatos-para-a-chuva, durante o verão. faz-se flor a mão que deixei cair. uma a uma. são vagas as pétalas. as palavras que se afloram na garganta. e morrem dentro da boca. dissipo-me. possa eu ouvir-te gritar. ecoar. límpido e imenso: a voz. nisto se igualam as mãos: a voz. só nisto teimo em forçar a memória. uma a uma: na voz dissipam-se as mãos.

[margarida]


água-de-beber

sexta-feira, 17 junho 2005

água-de-beber

Cansada de dominar los nervios decidí reposar.


[margarida]


eu não oiço

sexta-feira, 15 abril 2005

eu não oiço. não ouve ninguém o que eu oiço. eu não oiço. o meu quarto, o meu corpo. não ouve ninguém que cai pó das paredes. há fendas onde as mãos adivinham a calosidade do cimento, como escoriações. há pó em cima da pele. pó em cima dos desenhos. como os primeiros traços do mundo, aqueles que fora das margens desenharam um quadrado e, ao lado, um olho. aquele a que chamaram ”Cão”. e esse olho era da cor do pó. esse foi o primeiro olho que existiu. os primeiros traços do mundo no pó do meu corpo. eu não oiço. mas o pó também mora nos dedos, que se levam à boca, e essa foi a primeira boca que existiu. é aqui que mora todo o pó do mundo. eu não oiço. não houve ninguém que ouvisse. ama-me agora se queres ver. tu não me ves. eu não oiço.

[margarida]


a luz nas tuas entranhas

sábado, 12 março 2005

como um alfinete que se confunde com o chão. lembras-te? de noite há montras luminosas e luzes na chuva e passos que escorregam. cá dentro há mãos que não encontram nada nos bolsos. quase mãos, quase mangas. confundo-me. um dia agrafei o polegar. quase que não me lembrava. posso tactear o polegar com os dedos que me restam. mas se eu me esquecer - e tu não o vires - não existe o meu polegar. não foram ainda inventados os agrafos. se eu não me lembrar. nenhum grito infantil instaurou nenhuma vírgula. ninguém veio a correr. eu não chorei. não te podes lembrar. uma vez deram-me beijinhos na nuca enquanto tocava o sangue de uma ferida. duas mãos, firmes, seguravam-me os ombros enquanto ardia o algodão na carne. penso que pontapeio alfinetes sem dar conta. ando descalça pelas várias divisões. ignoro a formalidade das salas de estar quando estou. encaracolo os dedos dos pés enquanto me esqueço de estar. escondo um pé no outro. desequilibro-me e caio. como um alfinete, confundo-me com o chão. piso-me. mas se eu não me esquecer - e tu não o vires - ninguém deixará de pisar. nenhum grito me denunciará. não podes ver. se chorar e me esquecer, não chorei. tu não me vês.

[margarida]


terceiro degrau de separação

sábado, 5 março 2005

terceiro degrau de separação


é demorado o retorno a casa. a nostalgia medra a cada canção, alastra-se à imolação do que cessamos e à náusea do que ainda falta esquadrinhar. o que não consigo omitir goteja mais violentamente quando o sol tomba e emerge o que subsiste ao cansaço e à magoa inefável do extravio: umnadaqueéquasetudo.


segundo degrau de separação

quinta-feira, 3 março 2005

segundo degrau de separação


qual é a derradeira recordação que reservas de quem já não amas? numa abordagem ligeira e sem me apear nas minúcias, a imagem, por mais remota que seja, pode não ser muito díspar da anamnese de quem amo. por vezes, conseguimos sintetizar as lembranças na velocidade e nas faixas de duas vias. como quando o táxi transpõe o autocarro apinhado de gente, mas lobrigamos um rosto distinto à janela. mesmo que por instantes escassos, ainda para mais embaciados, percebi o que indagavas. quando nos aferrolhamos em nós próprios, os discos são muito mais o mal do que a cura e o silêncio desfigura uma linha recta numa estrada inundada de curvas, incómoda e pouco apetecível.


primeiro degrau de separação

quarta-feira, 2 março 2005

árvore


há um espaço minguado entre o tudo e o nada, que acalenta o som das canções que o mutismo das palavras nos obstou. residiamos num jardim indecoroso tangente ao tempo estagnado na haste das plantas. hoje, no calvário, contemplei uma velha com cabelos cor de mel. ela sorriu ao de leve e, algures entre o esconso e o tremido, asseverou: há lábios maravilhosos, mas esses só se podem beijar uma vez.


winter shoes

terça-feira, 8 fevereiro 2005

dissipo. possa eu ouvir-te dissipar-me. à flor da terra. comigo. talvez se construam caminhos que não se pisem nunca. insensível. fez-se eterna a hora de hoje. mas a medir acho a fragilidade. erro a poça. perene, nos meus sapatos-para-a-chuva. fez-se flor a mão que deixei cair. uma a uma. são vagas as pétalas. as palavras que se afloram na garganta. e morrem dentro da boca. comigo. dissipo-me. possa eu ouvir-te gritar. escoar. límpido e imenso. a voz. nisto se igualam as mãos: a voz. só nisto teimo em forçar a memória. uma a uma. dissipam-se, as mãos.

[margarida]


um brinde (ou talvez a esperança)

quarta-feira, 26 janeiro 2005

se me abraçares
conto-te uma história
de encantar
para suspirar
e ver-te adormecer
como uma criança

sinto tanto frio
ou não fosse natal
mas hei-de resistir
a mais um ano
só para te ver sorrir
só para te sentir

hoje apetece-me ouvir
a banda sonora
do meu funeral
com a minha vontade
de te voltar a mentir

se me abraçares
talvez encontre a verdade
talvez até me esqueça
da minha vingança
para poder beber
à nossa esperança
(a nossa esperança).