oito de dezembro
sexta-feira, 8 dezembro 2006

não, tu não (me) vais fugir. ainda temos muitos cafés por tomar e uma infinidade de histórias para partilhar. Amo-te.
onde é aqui
sexta-feira, 8 dezembro 2006
onde é aqui,
o centro,
onde se respira,
a cama limpa
ao corpo inteiro e nu.
onde é a fome e o braço toca
o esplendor.
respira o ventre,
a vela incha
ao sol e ao mar sem fim.
onde é aqui,
a fome nua,
a árvore exacta
no centro
da alegria,
a luz e o olhar
aberto ao mar.
onde é onde
a mão sabe
a carícia da anca
e a língua fabrica
o seu sabor a sol.
onde o fogo acende
o pulso do poema.
(António Ramos Rosa)
estar aqui, ficar aqui
quinta-feira, 7 dezembro 2006
a minha alegria é o aroma de tangerina nos dedos,
comer aos gomos a paisagem
e limpar depois
a boca
à manga do espanto.
Tu puxas-me
e somos duas crianças
num trilho de mata
num banco de pedra,
num portão verde dividindo
o aqui e o ali.
Porque nós estamos aqui.
Aqui onde te entrego os meus bolsos,
e - repara - as tuas mãos cabem.
Nós estamos aqui.
Menina do rio na tua canoa de silêncios, a tua voz enrola-se na minha voz como prédios
e sombra numa cidade, como leite e açúcar na infância, como
o destino de um navio.
Atravesso quilometricamente a pobreza deste reino para te ver, para te ver uma bússola de neve,
uma corda vermelha, a destreza de um telhado através dos
dias.
Tu não precisas falar uma outra língua, o persa é uma língua que nos chega! Tu não precisas oferecer-me
portas e milhares de portas, basta que apareças.
Que apareças nesta fogueira de bruxas, na inquisição canina de uma época longe, muito longe,
dolorosamente longe da magia de um homem e de uma mulher.
Nós estamos aqui para arder pelo nosso corpo completo.
Tu e eu, leões estirados ao sol,
harpa para os nossos dedos quentes,
poema numa sala de lâminas.
Nós estamos aqui para fugir, nós estamos aqui para chegar
de vez.
(Vasco Gato)
triângulo escaleno | 3-12-2006
segunda-feira, 4 dezembro 2006
No primeiro Triângulo Escaleno de Dezembro contamos com um convidado muito especial. É um momento esperado pelos autores do programa, já que Rui Malheiro vive em Braga e não desce à capital muitas vezes.
Estamos a falar de uma grande figura que vai ter muito para contar tanto na música como no futebol. Esperem um grande programa em que a conversa será seguramente do mais interessante que pode haver sobre assuntos tão normais nas várias edições do nosso programa.
em http://triangulo-escaleno.blogspot.com/
uma manhã de sol
domingo, 3 dezembro 2006
Hesito muito antes da palavra.
porque um precipício se abre nela
e não tem sentido,vibra apenas.
porque pode ser a morte
ou o nascimento para um lugar
de cores e fadas e barcos de sol.
porque me doem as mãos
cada vez que tento segurar
o mundo em traços redondos quadrados.
por isso te digo:hesito e morro e nasço.
e corro para a rua com a força de quem
vai anunciar gritar chamar dizer.
mas lá fora sorrio apenas
enquanto caminho para um banco
de jardim,devagarinho,
como se por um momento
eu soubesse o nome de tudo
e tudo tivesse o mesmo nome.
(Vasco Gato)
ficamos a tocar até perto das seis da manhã. acordei agora, lento, mas quase solarengo, como o dia. queria ler-te o poema antes de (te) dizer o (teu) nome.
partir para ficar, partir para voltar
sábado, 2 dezembro 2006
"E se inventássemos o mar de volta? e se inventássemos partir, para regressar? Partir e aí nessa viajem ressuscitar da morte às arrecuas que me deste. Partida para ganhar, partida de acordar, abrir os olhos, numa ânsia colectiva de tudo fecundar, terra, mar, mãe… Lembrar como o mar nos ensinava a sonhar alto, lembrar nota a nota o canto das sereias, lembrar o depois do adeus, e o frágil e ingénuo cravo da Rua do Arsenal, lembrar cada lágrima, cada abraço, cada morte, cada traição, partir aqui com a ciência toda do passado, partir, aqui, para ficar…"
(José Mário Branco, FMI)
senti, ao longo do dia, vontade de te dizer coisas. amanhã, que é já hoje, também. é hora de adormecer com pedacinhos de revolução nos auriculares. bom dia.
e se inventassemos o mar de volta?
quinta-feira, 30 novembro 2006
bebe | siempre me quedara
hoje: lisa germano | theatro circo
amanhã: os putos correm pela rua. mutantes embriagados. desfiam o cais do sodré. sorriem no cais de veludo.
domingo: triângulo escaleno | quimica fm
segunda: cat power | aula magna
jornal record | o scout do bessa
quarta-feira, 11 outubro 2006

O "scout" do Bessa
«Em tempo de recessão, o Boavista volta a mostrar que tem uma estratégia... adequada à falta do dinheiro de outrora. Da mesma forma que para chegar ao título e garantir anos consecutivos a Liga dos Campeões foi preciso dominar muito, os axadrezados procuram agora refinar-se numa área que nem todos os clubes portugueses exploram. Falo do "scouting", que o FC Porto vai apostar forte para potenciar a formação e não esbanjar dinheiro em brasileiros sem qualidade. O Boavista, não tendo os recursos do vizinho, está a trabalhar esta área com discrição. É assim que se percebe, por exemplo, como Linz virou pantera. Se o director-executivo foi elogiado pela sagacidade nas negociações, é a Rui Malheiro que devem ser entregues os créditos da descoberta. Não tendo em rigor a definição de "scout", tem olho para a pesquisa e os outros já o têm... debaixo de olho».
jornal Record, 11 de outubro de 2006.
há tanta coisa que me prende a ti
domingo, 8 outubro 2006
da minha janela vê-se uma espécie muito rara de angústia
tem o corpo que não ousei que me fosse
usa o amor como a origem da sede
e sossega-me contra o peito da alvorada
da minha janela vê-se uma espécie única de medo
chama-se eu mas diz-se tu
e por vezes nós quando prende a vida
a algo tão falível como a vida
da minha janela não se vê mais nada
ouve-se o silêncio contra mim
e chove a morte contra os vidros
por dentro como soa o fim.
pedro sena-lino.
ana salomé | anáfora
quarta-feira, 2 agosto 2006

ana salomé | anáfora (publicações pena perfeita, 2006)
os sonhos falam, sol maior.
deambulações
domingo, 12 março 2006
pouco resta a destruir
passamos os dias a ler o que outros escreveram
por desfastio
à maneira dos jovens príncipes persas
daqui a umas horas quando a manhã vier branca e fria
saberemos nós andar?
conseguirei eu lembrar-me de como se põe um pé à
frente do outro?
sem cair
sem cair.
gira-sol
terça-feira, 7 março 2006
Aquele que acredita no girassol não meditará dentro de casa.
Todos os pensamentos de amor serão os seus pensamentos.
René Char
[não era o vento que passava por ti]
domingo, 12 fevereiro 2006
não era o vento que passava por ti
eras tu à beira do vento
eras tu quem inventava tudo
porque para além de ti a vida
apenas aguardava
um olhar que a supusesse
um gesto talvez imaginado
que confundisse de uma vez por todas
a noite com a tua alma
porque junto de ti só o teu corpo se erguia
lento e demorado
e cinzas de sete lares por conhecer ainda.
opúsculos e incunábulos
sexta-feira, 10 fevereiro 2006
opúsculos e incunábulos | galeria jorge shirley
[é depois das primeiras chuvas]
terça-feira, 7 fevereiro 2006
é depois das primeiras chuvas
que recuamos
ao limiar de uma tristeza consentida
ao recolhimento calculado de remorsos
sem préstimo
o inverno é um balanço espesso
uma lama que cerca o coração
atravessa-se devagar de uma soleira
para a protecção de todas as soleiras
porque a paixão das travessias é antiga
nelas se esquece da morte
quem se esqueceu da vida.
manuel afonso costa | os últimos lugares
terça-feira, 7 fevereiro 2006

há um tempo na tua vida
em que deves arriscar tudo
até a própria vida
depois, esquece
não faças do tempo que falta
um mar de remorsos.
apesar dos perigos, o primeiro degrau de aproximação.
señoritas
terça-feira, 31 janeiro 2006
naquele porto os metalómanos barcos
esmagam a paisagem
de energia brutal, parada.
num barco soviético
o marinheiro põe o punho a meio gás
como o comunismo enjeitado na sua terra.
disse-lhe que portugal ainda tinha muitos comunistas
mas o que ele queria saber era onde havia señoritas
que o levassem a dar uma volta.
la pistola de mi hermano
sábado, 28 janeiro 2006
La pistola de mi hermano (1997)
Género: Drama
Espanha
Director: Ray Loriga
Actores: Nico Bidasolo, Karra Elejalde, Anna Galiena, Andrés Gertrudix, Daniel González, Viggo Mortensen e Cristina Rosenvinge
Produtor: Enrique Cerezo
Guião: Ray Loriga
Fotografia: José Luis Alcaine
Música: Cristina Rosenvinge
Duração: 84 minutos
finalmente.
la muerte del hermano
quarta-feira, 25 janeiro 2006
Veo a los niños. Los niños boxeadores. Han vuelto. No los recuerdo, los veo. La memoria es un músico que toca de oídas. No me gusta escuchar las canciones de la memoria. Engañan, esconden, no dicen nada, se lo han dejado todo por el camino. A los niños boxeadores no los recuerdo, los veo. Como a los otros niños, los que juegan al fútbol en la playa. A lo mejor son los mismos niños, no lo sé. A lo mejor algunos niños son boxeadores y futbolistas, todos desde luego no. Los cuerpos de los niños
boxeadores son delgados y fuertes y negros, con el abdomen negro muy marcado y muy brillante. Desde donde estamos sentados se ve el ring y también, por el hueco de la escalera, el sótano, donde hacen sombra y calientan los músculos antes de salir a pelear. Están todos ahí, cada uno a lo suyo, no hablan, no se dicen nada entre ellos. No se odian. No se miran. Saben que en realidad no hay enemigo. Que uno pelea solo. Siempre.
No hay nada que hacer después de la muerte del hermano. Ya está todo dicho. Ya está todo hecho. No se da ni un solo paso cuando se termina el suelo bajo los pies. No tiene sentido. No hay donde ir. Ni un paso más. Entonces se da la vuelta y se sigue andando hasta el siguiente vacío. Las primeras muertes, de niño, no las vi. No pude verlas. Vi el agujero en el suelo, y las caras de los vivos delante de la muerte, perdidas del todo o desplomadas sobre sus zapatos negros. Oí el ruido de la muerte, el ruido de los motores de los coches de la muerte. Pero no supe nada de la muerte hasta mucho después, hasta la muerte del hermano. Ahora pienso que la muerte es siempre la muerte del hermano. Si no no hay muerte. Sólo se escucha la voz del hermano y por eso mismo sólo se siente el silencio del hermano. Lo demás es ruido o falta de ruido. Lo demás son coches negros en fila, andando juntos hacia ningún sitio. Por eso los niños se sienten cómodos en la armonía de los entierros, porque sus hermanos no van a morir todavía. Veo la elegancia de mi primer entierro y no veo nada más. Sólo la elegancia de los movimientos, de las palabras, la elegancia de todos los gestos repetidos un millón de veces. Sólo eso. Ya no sé dónde estábamos. Aunque sólo había dos bares en los que sirvieran alcohol en todo el pueblo. En uno de los dos. En el que estaba delante del mar, creo.
Nos sentábamos a pasar allí las tardes, entre los musulmanes renegados que bebían com cara de estar degollando gatos. Orgullosos de su bajeza moral. Nosotros bebíamos más tranquilos, como los extranjeros, ajenos a sus prohibiciones, sujetos a las nuestras que son otras. También había niños en el bar frente a la playa. Siempre los hay en Marruecos. Por todas partes. Te engañan, te marean, se ríen de ti. También te puedes reír con ellos. De ellos no, es imposible, son demasiado rápidos. Cuando tú estás cortando leña ellos ya han apagado el fuego. No hay nada que hacer. Creo que estábamos juntos, aunque puede ser que estuviera solo, no hay manera de saberlo. Estábamos tan juntos que pasábamos por uno la mayor parte del tiempo. No sé si eso era bueno, en realidad pienso que no era bueno en absoluto. Ahora somos dos otra vez. Más que nunca. Tampoco puedo decir a dónde nos llevará esto. En la playa, desde el bar, vi que la muerte de un hermano era la muerte de cualquier hermano y por lo tanto la muerte de todos.
Me di cuenta mirando a todos esos niños iguales. Los niños futbolistas, algunos muy buenos, con buen regate, rápidos, con dos piernas para tirar a puerta y no sólo una como tenía yo y como teníamos casi todos los niños con los que yo jugaba. Con un toque de balón asombroso, tocando y controlando con los pies descalzos y el balón mojado por el agua del mar. Tocando de cabeza también, con verdadera clase. Todos distintos, pero vistos desde lejos, borracho, mientras se hacía de noche, todos iguales. Nunca le he escrito a nadie una carta. A lo mejor esa es una de las cosas que echo de menos. Aparte de no haber sido futbolista profesional. Lloré en el homenaje a Juanito. Tenía un regate mortal. Me gustaría haberle escrito una carta. A Juanito le cayó una viga encima volviendo a Málaga de un partido, Real Madrid-Torino. Después de eso ya no leyó más, ni mis cartas, ni las cartas de nadie, ni nada. Por otro lado, no creo que antes de eso leyera mucho.
Una vez conocí a alguien que escribía cartas larguísimas y las mandaba a cualquiera. Elegía una dirección cualquiera y mandaba sus cartas. Nunca ponía remite. No le gustaba leer cartas, le gustaba escribirlas. Como esa gente a la que le gusta contar sus sueños pero no soporta escuchar los sueños de los demás. En realidad creo que todos somos esa gente.
Los niños del sur de Marruecos quieren ser boxeadores o futbolistas. Yo también. No recuerdo el día que dejé de pensar seriamente en ser boxeador. Supongo que fue el mismo día que dejé de divertirme en los entierros.
Hay que mentir siempre. Acerca de lo que sea. No hay pregunta que no merezca una mentira. Todas las preguntas son peligrosas. La mentira es la verdad individual en contra de la verdad colectiva. La mentira es la voluntad y también la falta de responsabilidad sobre esa voluntad. Se puede enterrar una mentira con otra mentira y a ésa con otra más. Sólo la muerte puede acabar con todas las mentiras.
Los niños son los que mejor mienten, están tan lejos de la muerte que ni la vem venir. Los suicidas van dejando de mentir hasta que se pegan un tiro en la cabeza. Curt Kobain dejó de mentir, perdió toda su habilidad para la mentira y después de eso no tuvo más remedio que volarse los sesos.
La mentira es el respeto por uno mismo por encima del respeto por los demás. La mentira es mía, la verdad, no.
Una vez estuve sentado sobre la tumba de Vincent y Theo van Gogh en Auvers-sur-Oise y no creo que haya en el mundo, en la historia del mundo dos personas más muertas, dos hermanos más muertos que ellos dos. También vi los campos de trigo donde Vincent se agujereó el corazón. Unos campos de trigo inmensos. Nada más que trigo por todas partes. Al otro lado del pueblo está el río. Verde, hermoso, con árboles que llegan hasta el agua, amable, francés. La pensión en la que vivía Vincent está más cerca del agua que del trigo. Nada es accidental. El incendio, cuando está, se lleva dentro.
No se boxea sin esperanza. Nunca. Eso, sencillamente, no existe. Los que están en contra del boxeo están en contra de la esperanza. Están en contra de los niños, de los niños del sur de Marruecos y de todos los niños. Los boxeadores sólo tienen sus mentiras, la verdad los tumba.
Los niños no se van nunca, están siempre dentro. El daño de los niños también. Los niños que han sobrevivido al horror temen tener hijos. Le tienen miedo a ese daño, a que sea inevitable. Nunca causarán el daño, pero no están seguros de poder evitarlo. No hay crimen comparable a dañar a un niño. Matar a un hombre es más justo que herir a un niño. Los niños del horror perdonan para seguir viviendo pero nunca olvidan. Su memoria no es ni siquiera rencor, normalmente, es sólo tristeza.
Un niño golpeado es un hombre golpeado. Un niño violado es un hombre violado. Eso es lo más difícil, lo más injusto. Ya nunca sueñas con un futuro mejor, sino con un pasado distinto.
Siempre es igual cuando hablo de los niños. Encima de la tumba de quien sea, solo veo a los niños. No sé si algún día conseguiré librarme de ellos. No sé si quiero. No sé si hay algo más. Los niños son siempre los hermanos y nunca los hijos. Por eso las madres están todas locas. Encima de la tumba de los hermanos Van Gogh vi dos niños agujereados por un mismo disparo. Para un niño sólo existen las muertes de los niños.
Los hombres son los que tienen que morir. Su muerte se acepta, casi ni se ve. La muerte de los niños es imposible. No hay por qué aceptarla, no existe. Luego, con los años, todas las muertes que importan son muertes de niño, muertes de hermano.
La muerte de mi madre será una muerte de hermano y la muerte de mi padre también y hasta la muerte de mis hijos. Todo lo demás no es muerte. No es nada. Las mujeres aman a los hombres y en los hombres a menudo ven los niños, sin embargo rara vez son capaces de ver en los hijos, los hombres. Por eso se vuelven locas.
Pero eso es otra historia.
Aunque viva dos millones de años siempre veré a los boxeadores de Marruecos, pequeños, negros, ágiles, limpios, solos. Los giros de cintura, las esquivas, los ganchos, los yabs, la guardia francesa, el equilibrio, el miedo. Los boxeadores antes de salir al ring están luchando, mucho más incluso de lo que lucharán después. La pelea va sola, no depende del boxeador totalmente, a veces incluso se traga al boxeador. El estado natural del púgil es la soledad. Su razón de ser. Se pelea solo. Siempre. No hay outra pelea. Se gana solo. Se pierde solo. El otro no importa.
Todos los hombres están solos o no son nada.
Ray Loriga.
quem
sábado, 21 janeiro 2006
Não sei como se ressuscita
no terceiro dia
de cada sílaba
nem se há palavra para voltar
do grande rio do
esquecimento.
Não sei se no terceiro dia
alguém me espera. Ou se
ninguém.
Em cada poema levanto a pedra
em cada poema pergunto quem.
Manuel Alegre.
[cheguei a ter medo de te perder,]
domingo, 8 janeiro 2006
Cheguei a ter medo de te perder,
tu não chegaste sequer a ter medo.
Este silêncio de já não termos palavras
ouve-se nas outras palavras que trocamos.
Miserável mundo nosso e alheio,
igual ao que todos disseram da sua época,
e pior, porque este vivemos nós
e conhecemos nós, cada um conforme pode.
Já morreram os ídolos todos da infância
e os da adolescência vão a caminho,
sobrevivente é o teu olhar cego
(hoje já só há um dos Righteous Brothers).
Na feira das velharias uma caixa
para tabaco com um rosa verde.
Tem o preço ainda em escudos, uma falha
num dos cantos, uma pequena cruz de cal.
Permaneces aí, à lareira, lendo livros vivos
e o seu turbilhão de palavras profundas.
Nunca mais chega o medo de nos perdermos,
eco um do outro em ricochete de silêncios.
Hélder Moura Pinheiro [mútuo consentimento, 2005].
interioridade
quarta-feira, 4 janeiro 2006
Interioridade
és bem o estímulo tu
duma vida cumprida ao serviço do invisível
Em teu nome
já eu sofri todos os pecados do Mundo
todas as humilhações já eu suportei
e tudo em teu nome
para que em teu nome de tudo eu aproveitasse
uma reinvindicação
E é certo que sempre te reclamarei
nos instantes mais tenebrosos do homem
ainda quando toda uma cidade se virar
contra nós
e quando a paisagem já não nos distrair
Interioridade
que coisas eu não imaginei poder fazer de ti
construir contigo templos imaginários
onde todos os homens se poderiam redimir
de todas as culpas
e onde só tu fosses o único elemento
de aniquilação de pecados
E no entanto um leopardo há sempre
em cada árvore da alma
e sempre um homem pode ser vítima
da sua selva interior
E no entanto eu propunha a todos os homens
a escalpelização dos animais selvagens
a abertura de vias férreas de progresso
interior
clareiras e estepes para uma melhor
expectação de horizontes
Porém há sempre um leopardo no
cimo da árvore mais inocentemente descopada
e o homem muitas vezes sacrifica
ao perigo da guerra
a noção do convívio.
à altura do teu rosto
sexta-feira, 23 dezembro 2005
à altura do teu rosto
os meus olhos habitam no silêncio brilhante.
não olho: no concâvo vazio recebo-te
igual a ti, a teu lado,
teu rosto me alimenta
de fraterno orvalho.
tu modelas-me no antigo carinho das únicas
coisas preciosas,
refazes-me na transparência fraternal,
dás-me a forma translúcida da vida,
a sede luminosa em que tudo se renova.
antónio ramos rosa (1962).
la d'amor
quinta-feira, 15 dezembro 2005
Ayer vite na fonte tabes cantandoy hoy que pase per ella tabes llorando,Díme por qué tras triste y descoloríadime por qué sospires prenda quería. Sospiro por amores que yo quería,sospiro por amores que yo tenía. Amores que tuvisti sigues teniendo,ya sabes que te quixi y sigo queriendo. ¿Si tanto me quixisti y sigues queriendo,por qué nun vas a veme cuando te espero?Ya se que tienes otra que t'enamora,bien se qu'a mí me dexes llorando sola. La qu'a mí m'enamora tu bien lo sabes,que yes tu prenda mía coles tos gracies. Les gracies que yo tengo nun son dalguna,por eso vivo sola como la lluna. Pues si tu yes la lluna yo soy lluceru,que te voy persiguiendo per todo'l cielu. Ya se fue l'amor, ya se fue'l quereral pie d'una fonte m'amaste y t'ame.
nos teus olhos de silêncio
sexta-feira, 9 dezembro 2005
a nudez da palavra que te despe.
que treme, esquiva.
com os olhos dela te quero ver,
que não vejo.
boca na boca através de que boca
posso eu abrir-te e ver-te?
é meu receio que escreve e não o gosto
do sol de ver-te?
todo o espaço dou ao espelho vivo
e do vazio te escuto.
silêncio de vertigem, pausa, côncavo
de onde nasces, morres, brilhas, branca?
és palavra ou és corpo unido em nada?
é de mim que nasces ou do mundo solta?
amorosa confusão, te perco e te acho,
à beira de nasceres tua boca toco
e o beijo é já perder-te.
antónio ramos rosa.
acordar tarde
segunda-feira, 8 novembro 2004
tocas as flores murchas que alguém te ofereceu
quando o rio parou de correr e a noite
foi tão luminosa quanto a mota que falhou
a curva - e o serviço postal não funcionou
no dia seguinte
procuras ávido aquilo que o mar não devorou
e passas a língua na cola dos selos lambidos
por assassinos - e a tua mão segurando a faca
cujo gume possui a fatalidade do sangue contaminado
dos amantes ocasionais - nada a fazer
irás sozinho vida dentro
os braços estendidos como se entrasses na água
o corpo num arco de pedra tenso simulando
a casa
onde me abrigo do mortal brilho do meio-dia
al berto, horto de incêndio